- Ao descobrir Karnak em 1828, Champollion exclamou:
Nós, europeus, não passamos de liliputianos. Nenhum povo antigo ou moderno concebeu a arte da arquitetura numa escala tão sublime, tão grandiosa, como fizeram os antigos egípcios... Uma só coluna de Karnak isoladamente é mais monumento que as quatro fachadas do pátio do Louvre.

Nada restou dos palácios e das casas da época faraônica, porque foram feitos com tijolo cru. Já as moradas dos deuses e dos mortos, destinadas à eternidade, exigiram materiais resistentes. Depois de terem utilizado barro, madeira, feixes de bambu e de papiro, os egípcios escolheram a pedra, admiravelmente trabalhada por eles com ferramentas rudimentares. Templos e túmulos sobreviveram aos séculos, com a ajuda da areia protetora.

Nada de gratuito. Nada de arte pela arte. Mas sempre se pode imaginar que os palácios e as casas também abrigavam obras-primas para o simples prazer dos olhos. Nas ruínas de Tell el-Amarna, foram encontrados fragmentos de piso pintado que evidenciam isso, além das muitas peças de louça e das jóias que chegaram até nós.
Nessas paredes cobertas de baixos relevos, os rostos parecem intercambiáveis. Não vemos nem o caráter da pessoa representada, nem seus estados de ânimo passageiros. Trata-se de mostrar coisas essenciais, que ultrapassam o indivíduo e o instante. A iluminação do momento é ignorada: as figuras destacam-se perfeitamente, sem efeitos de luz e sombra. É a totalidade do real que deve ser apreendida. Não o real como o vemos, mas como o representamos.
A arte egípcia é imediatamente reconhecível, pois respeita convenções muito peculiares. As personagens, por exemplo:
- Estão ao mesmo tempo de frente e de perfil, como se nada devesse ser escondido.
- Vemos os dois ombros, os dois braços e as duas pernas e todos os dedos alinhados.
- O polegar está malposicionado: essas figuras tem duas mãos direitas ou duas esquerdas.
- Não há perspectiva, mas enxergamos através dos objetos: conteúdo e continente aparecem simultaneamente.
- Um mesmo desenho pode conter escalas diferentes, já que o tamanho das personagens corresponde à sua importância na escala social: um rei é maior que um alto funcionário público, e este ultrapassa em uma cabeça um simples soldado.
- As cores também obedecem as regras aparentemente não realistas: a pele dos homens é de um ocre avermelhado, enquanto a das mulheres exibe um ocre mais amarelado.

Salvo raras exceções, nenhuma obra é assinada. Sabemos o nome de quem as financiou, não o do artista. Eram mais artesãos do que artistas: mesmo uma simples estátua passava por várias mãos e era fruto de um trabalho de equipe. Nada mais tocante que os esboços feitos por esses anônimos e encontrados nos túmulos, nos baixos relevos inacabados ou nos fragmentos de objetos de terracota.
Os artesãos aplicavam escrupulosamente as regras fixadas por volta de 3 000 aC, regras que perdurariam, com algumas atenuações, até a época romana, mais de 30 séculos depois. A arte floresceu enquanto reinava a ordem. Atingiu o ápice quando o faraó estava no auge do poder. Uma arte real.
Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé
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