terça-feira, 30 de junho de 2009

Educação de criança



As mães egípcias levam seus bebês a tiracolo, quando precisam das mãos livres, no colo ou sobre o quadril, atada com uma faixa de linho. Quando a criança já sabe andar, pode ir brincar com outras crianças, nuas como ela, salvo quando está frio; traz no pescoço um amuleto protetor, muitas vezes uma conta azul turquesa enfiada num cordão, para afastar o mal olhado. A menina andará nua até ficar menstruada, embora não se vista para nadar ou dançar.

Brincadeiras infantis
Aprende muito cedo a nadar no rio, nos canais e para os mais ricos também nos tanques. Tem muitos tipos de brinquedos:
  1. bonecas de trapos,
  2. brinquedos de madeira,
  3. jogos de sociedade,
sem contar com a permanente companhia dos animais domésticos: cães, gatos e macacos.

As cenas conservadas nos túmulos de Beni Hassan, no Médio Egito, revelam distrações de meninas e adolescentes novas. Longe da presença dos meninos, fazem malabarismos com uma bola. As mais ágeis adotam uma posição complicada, montadas em cima das companheiras abaixadas. A ginástica era praticada, num exercício de flexibilidade, e ainda praticam uma espécie de judô. Esses exemplos muito vivos indicam que, longe de ficarem recolhidas em casa, as jovens egípcias tinham a possibilidade de praticar jogos. No Antigo Egito a "liberação do corpo" era um fato consumado.

O respeito devido à mãe
Os egípcio antigos não prestavam culto à criança-rei. A mãe exige respeito e boa educação. Como qualquer criança, é como uma "vara torta" que convém endireitar e que distingue por dois grandes defeitos: 1. a surdez às recomendações 2. a ingratidão.

O papel da mãe consiste em abrir os ouvidos dos filhos, "os vivos", através dos quais passam os ensinamentos. Vários grandes personagens fizeram-se representar junto de sua mãe, orgulhosos. Muitos faraós homenagearam sua progenitora, considerada a encarnação da Grande Mãe.

"Duplica o pão que tua mãe te deu, e carrega com ela como carregou contigo. Foste para ela um encargo, fatigaste-a, mas ela não te descurou. Seus cuidados não cessaram quando nasceste ao cabo de nove meses de gravidez. Deu-te de mamar durante três anos. Não enojou com teus excrementos, procurando tratar sempre de ti o melhor possível. Levou-te à escola. Aprendias a ler, e ela estava sempre junto de ti, preparando-te pão e cerveja. Lembra-te de que tua mãe te trouxe ao mundo e te criou com todo o desvelo. Cuidado, não possa ela censurar-te e levantar as mãos a Deus para se queixar de ti." (Sabedoria de Ani, Máxima 38)


A educação da menina
Ouvir música, aprender a cantar, tocar um instrumento, fiar e tecer. A escrita e a leitura são acessíveis às crianças na escola do povoado. Para ir mais longe, têm de dirigir-se à cidade, ou são admitidas na escola do templo. Para aplicar a educação no dia a dia, a menina deverá:
  • amar a verdade e detestar a mentira,
  • evitar os excessos e as paixões destrutivas,
  • não se julgar o centro do mundo,
  • praticar a solidariedade,
  • saber ouvir,
  • saborear as virtudes do silêncio e falar sabendo o que diz,
  • respeitar a palavra dada,
  • não reagir ao mínimo impulso vindo do exterior,
  • reconhecer em todas as coisas a presença do sagrado e do mistério, e
  • tentar agir com retidão.
Quando o coração do ser está aberto e consegue dizer e fazer a Maât (a ordem eterna), essa prática é preferível a todos os saberes. Eis o caminho traçado para as crianças.

Origem: 'As Egípcias' de Christian Jacq

domingo, 28 de junho de 2009

A descoberta do Miniesconderijo de Karnak

No decorrer dos séculos XIX e XX, foram feitas várias descobertas na exploração arqueológica do Egito que chamaram a atenção do mundo para os esplendores da civilização faraônica.
  • a tumba intacta de Tutancâmon, descoberta em 1902 por Howard Carter
  • vasto número de textos que Auguste Mariette recolheu das abóbadas do Serapeum em 1851
  • esconderijo real de Deir el-Bahri, saqueado e depois explorado entre 1875 e 1871
  • escavações espetaculares de Pierre Montet, em Tânis entre 1939 e 1945, uma necrópole real da 21ª e 22ª dinastia, que na maior parte estava intacta

A descoberta do Miniesconderijo de Karnak, por Georges Legrain entre 1903 e 1905, pode ser certamente incluída nessa lista de grande realizações.

Georges Legrain e Gaston Maspero resolveram escavar o pátio do 7º pilone do grande templo de Karnak. Depois de escavar alguns blocos que pertenciam à capela do jubileu de Amenófis I, encontrou-se uma grande laje de alabastro, identificada depois como uma estela de Seti I. Alguns centímetros mais embaixo apareceram 3 magníficas estátuas de tamanho considerável, entre as quais havia uma figura de Amenemhet esculpida em uma pedra verde de cor muito intensa. As primeiras descobertas de uma série que iria continuar por dois anos.

Depois foi descoberta uma escultura do Período Final de um certo Ahmes, filho de Pakharkhonsu, e logo os achados de Legrain formaram uma coleção de esculturas muito rica.

Trabalhando sob condições extremamente difíceis, a equipe recuperou meticulosamente:
  • mais de 700 estátuas
  • 16 mil objetos de bronze e outros numerosos objetos arcaicos
até a escavação ser suspendida em julho de 1905.

Georges Legrain deixou notas preliminares do progresso e do resultado de seu trabalho, se manteve um registro diário de seus achados, o que provavelmente deve ter feito, não foram preservados. Ele escreveu, talvez exagerando um pouco: "Eu estudei cada um deles, copiei e traduzi as inscrições que o cobriam, preparei seu arquivo, sua genealogia e fotografei-os assim que foram descobertos". Se essa documentação realmente existiu, sua perda deveria ser lamentada como uma das maiores calamidades já ocorridas na Egiptologia.

Quando Legrain foi forçado a interromper seu trabalho em julho de 1905 devido ao vazamento de água, ele sabia certamente que o Miniesconderijo ainda não havia mostrado todos os seus segredos. As estátuas que ele recuperou estavam em geral intactas, apesar de algumas terem sido quebradas durante o trabalho de escavação. Teve que tomar medidas severas para evitar ser assoberbado pelo fluxo de objetos que emergiam diariamente. Primeiro um lugar seguro teve de ser encontrado para prevenir os roubos. Apesar de todas as precauções, Legrain não pode evitar que os ladrões levassem, do edifício do Serviço de Antiguidades, 2 das belas estátuas que ele havia descoberto no começo de suas escavações. Mas felizmente os objetos perdidos foram logo recuperados. De acordo com as possibilidades as estátuas eram regularmente enviadas para o Museu Egípcio do Cairo.

A enorme publicidade acerca da descoberta havia despertado demais o interesse dos negociantes de antiguidades, que não poderiam deixar de tentar ganhar algum dinheiro. Algumas estátuas, as de tamanho médio, desapareceram misteriosamente, no transporte ou depois da sua chegada ao museu. Não há praticamente nenhuma coleção na Europa ou nos EUA, que não possua algum objeto do Miniesconderijo. O roubo era sem dúvida a principal causa desta dispersão, independentemente do modo como ocorreu. De que outra forma nós podemos explicar o fato de que, em alguns casos, uma parte de uma estátua está no Museu Egípcio do Cairo e a outra em um museu diferente em algum outro lugar?

Em sua chegada ao Museu do Cairo, os objetos eram registrados, mas as vezes somente depois de uma demora considerável. Nas páginas dedicadas a estes objetos, os números do inventário são normalmente seguidos pela letra "D" que significa, que tal objeto, na maioria estátuas, havia desaparecido. Deve ser enfatizado que nem todas as estátuas foram roubadas. Algumas devem ter atravessado o Salão de Vendas do Museu Egípcio do Cairo, onde antes as autoridades vendiam aos visitantes do museu os objetos que achavam que este já possuía em número suficiente.

Porque o sacerdócio de Karnak depositou em uma cova vasta tantos objetos a ser recuperado; e quando aconteceu esse despacho, que removeu dos templos de Karnak. Independente do motivo e apesar de o fato de nem todos os egiptólogos concordarem, é bastante evidente, a partir das anotações de Legrain, que o Miniesconderijo de Karnak foi montado em uma única ocasião e que os objetos foram depositados de uma maneira bastante fortuita, sem nenhuma ordem cronológica. Não tendo achado nenhuma escultura que considerasse anterior ao século I a.C , Legrain calculou, que o depósito datava do final do período grego, no mais tardar do início do domínio romano.

A descoberta do Miniesconderijo de Karnak é tanto um dos grandes momentos da exploração arqueológica no Egito, quanto o atestado do direito de Georges Legrain na fama eterna. Hoje sua considerável contribuição para a ciência da Egiptologia está clara. O rico acervo de obras de arte que ele salvou do esquecimento mudou profundamente nossa concepção sobre a escultura de Tebas, particularmente no que diz respeito ao estudo dos retratos dos reis.

Poderíamos esperar que o Antigo Império não fosse muito representado em Karnak, mas encontrou-se a parte inferior de uma estátua do rei Neuserre da 5ª dinastia, com um pé a frente; a parte superior desta estátua se encontra no Museu Nacional de Beirute. As figuras reais do Médio Império são mais numerosas, mesmo que limitadas a Senusret I, Senusret III e Amenemhet III, as figuras mais significativas da 12ª dinastia. A maioria de suas estátuas é uma verdadeira obra prima e ilustra o vigor realista característico da escultura real deste período.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido antes que o material extraído do Miniesconderijo de Karnak tenha dado toda sua contribuição potencial para o progresso dos estudos da Egiptologia. Mas à luz do que ele já concedeu, nada melhor do que terminarmos com a avaliação entusiástica pronunciada por Gaston Maspero, quando viu as escavações:
"Desde a descoberta do Serapeum por Mariette, ninguém tinha trazido à luz um material de tal importância em um único trabalho".

Texto de Herman De Meulenaere do livro
'Tesouros do Egito' do Museu Egípcio do Cairo


____Algumas peças encontradas no Miniesconderijo de Karnak_____




Deus é uno

O um que é único criou tudo aquilo que existe,
E a terra existiu pela primeira vez.
Seus nascimentos são misteriosos,
Suas formas inumeráveis,
Sua origem é desconhecida...
Toda forma de existência passou a existir
Quando sua existência existiu.
Nada existe fora dele.
Ele se vela à sua própria manifestação,
lâmpada irradiante de generosa claridade.
Papiro Cairo 58032

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Abidos

Inicialmente denominada Abdjw e Ebot em copta, esta cidade tem hoje o nome de Araba el-Madfounah, uma cidade do Antigo Egito pertencente ao VIII nomo do Alto Egito. O seu nome egípcio era Abdjw, onde se conservava a cabeça sagrada de Osíris. Onde encontraram as tábuas com a lista dos primeiros 77 reis e os restos das tumbas reais das primeiras dinastias e os templos de Osiris, de Seti I, de Ramsés II.

História
Os primeiros restos arqueológicos datam de 4000 a.C , posteriormente foi o lugar mais importante de tumbas das primeiras dinastias de reis egípcios. Ao fim da V dinastia surgiu o culto a Osíris. O mito de Osíris , segundo a tradição: em Abidos estava sua cabeça. Os mistérios de Osíris, no que produzia ritualmente a morte e a ressurreição do deus. Isto levou Abidos a se converter na cidade santa de Osíris, a cidade acolhia milhares de peregrinos. O último edifício construído foi o novo templo de Nectanebo I, na XXX dinastia. Na época ptolomaica a cidade decaiu e acabou desabitada.

Arquitetura
Um dos principais edifícios é o Templo de Seti I que foi construído em memória de Osiris, é o maior de todos os edifícios em Abidos. O templo, tem uma planta em forma de "L" , todo o conjunto está rodeado por um muro.

O Templo de Ramsés II, é um pequeno edifício ao noroeste do templo de Osíris, para mostrar o espírito de Ramsés numa relação estreita com Osíris.

Na zona entre o templo de Osíris e os cemitérios, que se estendia por 1,5 km aproximadamente ao sudoeste de Kom el-Sultan, até o templo de Seti I, os cemitérios são muitos mais extensos do que outros jazigos funerários locais. No Império Médio os faraós começaram a construir cenotáfios* em Abidos, culminando na XIX dinastia com os templos de Seti I e Ramsés II.
As atrações mais importantes em Abidos são os templos de Seti I, Ramsés II, o de Osiris, e o Osireion, que se encontra por trás do Templo de Seti I.
Origem: Wikipédia


O helicóptero de Abidos



Desenhos de naves, encontrado nas paredes do templo de Seti I, na sala hipostila.



À primeira vista, as figuras parecem realmente tanto com helicópteros e aviões que tem-se a impressão de que é uma fraude, ou uma montagem. Porém, expedições posteriores e mesmo anteriores incluindo uma disputa sobre a descoberta do 'achado' parecem confirmar que os hieroglifos existem da forma como é mostrada na fotografia.

O programa FOX não consultou egiptólogos sobre as figuras. Talvez porque aos egiptólogos elas têm uma explicação bem diferente:

"...., Eu temo que vocês foram sujeitos à famosa febre do "helicóptero de Abydos". Há uma explicação simples ao que vocês estão vendo, pelo menos, como nós vemos isso na egiptologia. Não há mistério aqui; é apenas um palimpsesto (... definido como "... Um manuscrito, tipicamente um papiro ou pergaminho em que foi escrito mais de uma vez, sem que a escrita anterior seja completamente apagada e freqüentemente ainda legível "...). Foi decidido na Antigüidade substituir o título real de cinco camadas de Seti I pelo de seu filho e sucessor, Ramsés II. Nas fotos, nós vemos claramente "Aquele que repele as nove alianças", que figura um pouco dos dois nomes femininos de Seti I, substituído por "Aquele que protege o Egito e supera os países estrangeiros", dois nomes femininos de Ramses II. Com parte do reboco que cobria o título de Seti I agora caído, alguns dos símbolos superpostos realmente parecem-se com um submarinos, etc., mas é apenas uma coincidência.



O que está acontecendo nas fotografias é bem claro; apenas consultem Juergen von Beckerath, Handbuch der aegyptischen Koenigsnamen, Muencher aegyptologische Studien 20, páginas 235 a 237.

Essa questão aparece de vez em quando em listas na internet acadêmicas como a Anciente Near East (ANE) e outras, então nós todos estamos bem familiares com ela.

Katherine Griffis-Greenberg
Membro, Centro de Pesquisa Americana no Egito
Associação Internacional de Egiptologistas
Univ de Akabama em Birmingham
Estudos Especiais"


A explicação de que é um palimpsesto, ou seja, a superposição de hieroglifos faz muito sentido. Basta olhar de novo para a foto olhando o diagrama, até mesmo um leigo pode perceber a superposição, e como há reboco caindo que coincidentemente acaba dando forma a desenhos intrigantes. É preciso notar que de fato, o helicóptero não foi totalmente identificado. Parte dos dois símbolos que o formam foi. Mas ao notar que o "submarino" e mesmo o 'avião e dirigível' foram, fica mais difícil acreditar que aquilo realmente seja um helicóptero.

Consideremos por um momento que aquilo seja realmente a representação de um helicóptero. Em primeiro lugar, falta ao desenho do helicóptero um contra-rotor na cauda. Tal helicóptero não voaria, ficaria girando descontroladamente. Mesmo com um rotor, ele seria incompatível com o estabilizador horizontal que, este sim, está representado. Essa não é a cauda de um helicóptero, é a de um avião.

Ainda, há uma inconsistência freqüente nessas reinterpretações de desenhos antigos. Se aquilo é um helicóptero, presume-se que foi inventado em uma cultura que nada tinha a ver com a que inventou o helicóptero que nós conhecemos. É uma ENORME coincidência que dois helicóptero inventados independentemente sejam iguais. O mesmo aplica-se a foguetes e a trajes espaciais. Se há algum desenho de helicóptero, foguete ou traje espacial de dez mil anos, nós provavelmente não reconheceríamos nenhum deles como tal. (www.ceticismoaberto.com)



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* cenotáfio
ce.no.tá.fio
sm (gr kenotáphion) Monumento sepulcral erigido em memória de defunto sepultado em outro lugar. (dicionário Michaelis)
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domingo, 21 de junho de 2009

Pepi II – reinado mais longo da história

Na 6ª dinastia (2325-2155 a.C) Pepi II aparece como o faraó principal, subiu ao trono ainda criança e seu reinado durou 94 anos, provando que os egípcios podiam viver longos anos. Esse reinado marcará o fim do Antigo Império, idade áurea que poucas civilizações conheceram. No início do reinado, o Egito ainda possuía bases sólidas.

Pepi II filho de Pepi I e meio irmão de Merenré, assume o poder com 6 anos de idade. Uma estátua de alabastro, de 40 cm de altura no Brooklyn Museum de Nova York, revela uma cena em que a rainha Ankhnesmerryre tem ao colo o pequeno faraó, perpendicular a ela, posição excepcional na estatuária egípcia. Estátua do monarca criança , mas o rosto já de adulto.


Reinado
Durante os primeiros anos de reinado, sua mãe dirige o país. Por ocasião de uma expedição enviada ao Sinaí, no ano 4 do reinado, mãe e filho são mencionados juntos. Época de um Egito poderoso. Mênfis é uma capital brilhante. Basta contemplar as admiráveis mastabas dos nobres, túmulos com baixos relevos encantadores ao longo da necrópole menfita, de Abusir norte e Saqqara sul. Tudo respira ordem e beleza. Os faraós da 6ª dinastia continuam mandando construir pirâmides que, embora muito menos altas que as de Quéops e de Quéfren, não deixam de ser monumentos imponentes. Essas pirâmides, todas elas com as mesmas proporções regidas pelo chamado "triângulo sagrado" comportam gigantescas pedras de abóbada de cerca de 2,5 m de espessura e que chegam a pesar 40 toneladas. Nas paredes continuam a gravar os Textos das Pirâmides, de acordo com a tradição que Unas (último rei da 5ª dinastia) começou.

Quando Pepi II estava com 8 anos de idade, o explorador Hirkhuf – homem rude e corajoso – empreendeu sua 4ª expedição à Núbia, partindo de Elefantina, descobrindo novas rotas. Traz de suas viagens:
  • incensos
  • marfim
  • óleos raros
  • peles de leopardo
  • paus de arremesso
Mas naquele ano, Hirkhuf traz uma grande curiosidade: um pigmeu, que apaixona o faraó, e recebe uma carta do monarca: "A Minha Majestade, deseja ver esse anão mais do que os produtos do Sinai e do Ponto". O faraó teve grande alegria em conhecer o que é um autêntico pigmeu, que fez danças dos deuses para o soberano.

Outro herói torna-se mais célebre do que Hirkhuf, o funcionário Ani, cuja carreira foi excepcionalmente longa. Começa a ocupar cargos subalternos antes de assumir importantes funções como:
  1. oficial de baixa patente
  2. portador do selo
  3. camareiro
  4. cargo sacerdotal na cidade da pirâmide de Pepi II
  5. confidente do faraó
  6. homem de confiança, num obscuro caso do harém
  7. papel militar da mais alta importância, chefe de tropas
  8. governador dos países do sul
  9. especialista em transportes de material
  10. encarregado da administração do Alto Egito no fim de sua carreira

Os nomos e seus nomarcas
O nomo de Elefantina, onde se situa a fronteira entre o Egito e a Núbia, causa problemas a Pepi II, mas também lhe confere um estatuto especial. Um alto funcionário especialmente encarregado dos assuntos núbios dirige-o, e não o monarca. A fronteira é estreitamente vigiada. Instala-se colônias da Núbia, protegidas pelo exército. Aventureiros, comerciantes e militares sulcam a Núbia, caravanas trazem ao Egito pedras preciosas, unguentos, penas de avestruz e ébano. A Núbia é o sonho exótico do Egito, um avanço realista e razoável em direção à África negra.

Nas atividades comerciais, são estabelecidos contatos regulares com o Ponto (moderna Eritréia) e com Biblos, regiões onde se importam produtos de luxo, essências preciosas e madeiras raras particularmente apreciadas pela requintada corte.

A 250 km a oeste de Luxor, oásis como Khargeh ou Dakhleh constituem pequenos mundos fechados em si mesmos, mas não desprezíveis. Khargeh tem hoje 150 km de comprimento e uma largura que varia entre 20 a 40 km. Em Balat, no oásis de Dakhleh, onde o Instituto Francês de Arqueologia Oriental acaba de fazer escavações, descobriram túmulos datados da 6ª dinastia. Havia ali um homem importante chamado Medu-Nefer – governador, capitão e alto dignatário do clero. Seu túmulo foi encontrado inviolado, porque sua superestrutura havia ruído. Continha numerosos objetos interessantes como :
  • cabeceiras em pedra
  • paletas de escribas
  • jóias e
  • amuletos
Os arquitetos da 6ª dinastia haviam edificado ali uma grande cidade. O oásis já não são terras perdidas nas imensidões desérticas, mas províncias egípcias habitadas e civilizadas.

O rei preocupou-se com fundações religiosas isentas de contribuições por decreto. Livrou certas confrarias religiosas do pagamento de impostos. Concedendo estes privilégios e permitindo a certos templos a exploração de terras que pertencem por direito ao faraó, Pepi II inicia um processo de enfraquecimento do poder real. A sua autoridade diminui fatalmente.

O poderoso reino de Pepi II é um colosso com pés de barro, não por ameaças externas, mas em virtude da sua estrutura interna. A relação entre o faraó e os nomarcas constitui o ponto fraco do Estado. Embora respeitando o poder central, vão se libertando dele. Dois indícios:
  1. o nomarca prefere ser enterrado no seu nomo do que em sepultura perto do faraó
  2. tende a tornar hereditário o seu cargo, transmitindo a seu filho sem pedir o parecer do faraó, a fim de que as riquezas adquiridas permaneçam na família
Muito raramente o faraó nomeia os nomarcas.

O nomarca de Abidos, tem a sua própria corte e seus funcionários dedicados, e a sua organização de seu palácio é copiada pela do palácio real. Os nomarcas são homens extremamente competentes, senhores de uma viva inteligência, sempre procurando não opor-se ao poder central do qual dependem e que lhes parece indispensável para assegurar a estabilidade no Egito, para manter sua própria fortuna. Quanto mais distante de Mênfis, mais os altos funcionários são livres para tomar suas próprias iniciativas quanto ao seu domínio. Seria abusivo imaginar facções de nomarcas preparadas para derrubar o faraó.

Fim do reinado
Escreveu-se várias vezes que o velho Pepi II já não tinha a autoridade necessária para governar o Egito, ancião de 94 anos abandonara as rédeas do poder aos seus nomarcas, os quais se haviam dilacerado uns aos outros; levando o país a anarquia.

Para compreender esse difícil fim de reinado, pensou:
  • numa invasão de beduínos no Baixo Egito,
  • numa guerra civil,
  • numa sucessão de fomes,
  • no abandono dos trabalhos de irrigação,
perigos supostos e não provados. A única certeza é o enfraquecimento do poder central, parcialmente transferido para certos nomarcas. As províncias mais ricas puderam adquirir uma relativa autonomia.

No final do reinado de Pepi II, o Antigo Império desmorona. Oito ou mais reis sucedem ao grande monarca, mas nenhuma personalidade forte consegue impor-se. O último soberano da 6ª dinastia e do Antigo Império é uma mulher Nitócris, "a mais nobre e a mais bela das mulheres de seu tempo", segundo Mâneton. Heródoto é mais um que não deixa de contar rumores maledicentes a seu respeito: que teria se suicidado depois de vingar os que haviam assassinado seu irmão, cuja morte lhe permitira subir ao trono. Aplica assim ao Egito as tristes querelas assassinas da Grécia. Na realidade Nitócris teve de domar uma crise, extremamente profunda para ser resolvida e que faria o Antigo Império afundar nas brumas do Primeiro Período Intermediário, por volta de 2155 a.C .



Origem: 'O Egito dos Grandes Faraós, histórias & Lendas' de Christian Jacq

sábado, 20 de junho de 2009

O coração

A Enéade criou a visão por meio dos olhos
e o entendimento por meio das orelhas,
e a respiração por meio do nariz.
Estes órgãos fazem as percepções subirem até o coração.
É graças ao coração que todo conhecimento existe,
a língua expressa o que o coração concebeu.
Assim nascem todas as potências criadoras,
o ser e o não-ser (Atum) e sua Enéade.
Toda palavra divina se manifesta
em função do pensamento do coração
e da formulação da língua.
Assim foram criadas as energias criadoras
e as qualidades do ser.
Assim foi gerado tudo que nos nutre e todos os 
alimentos benéficos: graças ao Verbo.
Assim foi dada vida ao justo e morte ao indivíduo iníquo.
Assim foram criadas todas as formas de trabalho e todos
os tipos de artesãos, a ação das mãos e o movimento das 
pernas, a mobilidade de cada membro: segundo a ordem 
concebida pelo coração e formulada pela língua, ordem
que cria continuamente a significação de cada coisa.
Pedra de Shabaka

Origem:  'A Sabedoria Viva do Antigo Egito' de Christian Jacq

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Tausert, a última rainha faraó

Merenptah, já idoso, sucedeu a Ramsés II, cerca de 1212 a.C , reinou 10 anos. Seu sucessor Sethi II, que parece teve grandes dificuldades em assumir o papel de faraó, morreu em 1196 a.C sendo seu sucessor o jovem Siptah, que era muito novo para reinar, e o poder foi confiado à regente Tausert, provavelmente a grande esposa real de Sethi II, mas que não era por certo a mãe do novo faraó.

"Rica em favores, doce soberana, muito amada, soberana das Duas Terras", ela que não era de sangue real, governou o Egito como outras mulheres o haviam feito antes. A história de Sptah é muito obscura. De acordo com o exame de sua múmia, Siptah tinha a perna esquerda atrofiada. Devia ter pouca saúde, e morreu depois de um curto reinado.



_______________Faraó_______________
De regente, Tausert  tornou-se faraó, segundo o mesmo processo que Hatchepsut, seu reinado, o último da 19ª dinastia, durou 8 anos (1196 - 1188 a.C).

Tausert recebeu vários nomes, como os faraós que a precederam:
a amada de Maât, aquela que possui a beleza na qualidade de rei, como Aton, a fundadora do Egito, aquela que submete os países estrangeiros, a soberana da terra amada, a amada de Amon, a poderosa, a amada de Mut, a eleita de Mut
Tausert, significa precisamente "a poderosa", com a idéia implícita  de que a rainha faraó é rica em força e valentia. A noção de beleza an é uma alusão ao físico da rainha, provavelmente à sua capacidade para pôr em prática "de maneira bela" a regra de Maât. De seu reinado nada se sabe. Partilha com o faraó Setnakht um grande túmulo do Vale dos Reis, no qual se encontram sublimes representações de deusas. Uma ínfima parte de seus tesouros foi preservada, pois havia sido dissimulada num esconderijo do Vale, e lá foram encontrados:
  • brincos
  • um colar de ouro
  • uma coroa formada de um grosso aro de ouro perfurado por 16 orifícios que serviam para fixar alternadamente flores em ouro amarelo  e vermelho, medindo 17 cm de diâmentro e 104 gramas de peso
O nome de Tausert encontra-se presente em monumentos do Delta, do Sinaí e da Núbia, tinha iniciado a construção do seu "templo de milhões de anos" a sul do Ramesseum. Os indícios são que seu reinado foi de paz e relativa prosperidade.

Origem: 'As Egípcias' de Christian Jacq

A rainha Khenet-Kaus

– um faraó esquecido?

O egiptólogo Selim Hassan, explorando uma parte do sítio de Gizé, a cerca de 400 m a sudeste da pirâmide de Quefrén, onde havia numerosas sepulturas decoradas, descobriu um extraordinário monumento: 
  • um imenso sarcófago cuja base tinha 40 m de comprimento,
  • retangular de teto abobadado
  • assentado sobre uma base quadrada
  • interior maciço, constituído em parte por rocha
Monumento comparável ao túmulo do rei Chepseskaf (cerca de 2504-2500 a.C), sucessor de Miquerinos e último rei da 4ª dinastia. 

No ângulo sudeste do túmulo-sarcófago de Gizé, nos alizares em granito de uma capela exterior e de uma "falsa porta" que estabelece a comunicação entre o visível e o invisível, aparece o nome e os títulos da proprietária:  Khenet-Kaus, "Aquela que preside aos seus poderes criadores", mãe do rei do Alto e do Baixo Egito, filha do deus, para o qual se realizam todas as boas coisas que ela formula

Filha certamente, de Miquerinos, o construtor da menor pirâmide das 3 de Gizé, foi criada e instruída na escola do palácio. Sua mãe seria a sublime Khamerer-Nebti, a esposa de Miquerinos. Chepseskat, o último rei da 4ª dinastia e Khenet-Kaus, considerada a "mãe" dos dois primeiros faraós da 5ª dinastia, mandaram construir o mesmo e excepcional tipo de túmulo. Abandonaram o símbolo da pirâmide que podia ser avistada de longe. Os primeiros monarcar da 5ª dinastia depois voltaram a edificar pirâmides na estação de Abusir, próximo a Saqqara.

Os "poderes criadores" sobre os quais essa mulher reinava eram talvez os seus sucessores, que ela havia preparado para reinarem, quer tenha sido ela mãe espiritual ou carnal, ou ambas. Infelizmente é impossível saber mais, mas Khenet-Kaus foi uma grande dama do Antigo Egito, uma figura marcante.

Fonte: 'As Egípcias' de Christian Jacq

terça-feira, 16 de junho de 2009

O interesse pelo Egito faraônico

Os gregos e a mitificação do Nilo
O Egito sempre chamou a atenção de diferentes povos por sua paisagem singular, sua fauna e flora surpreendentes e por seus impressionantes monumentos. Apesar dos contatos do Egito com o Mediterrâneo Oriental serem milenar, foram os gregos que iniciaram o processo de mitificação do Egito. Por volta de 450 a.C , o historiador grego Heródoto se dirigiu ao Delta do Rio Nilo para recolher material que utilizaria em seu livro de Histórias, em que procurava explicar a luta de gregos e persas remontando aos costumes e tradições dos povos orientais, com destaque para o Egito. Os gregos se surpreenderam com o regime das cheias do Nilo, com o sistema de escrita, que acreditaram ocultar verdades sagradas – por isso o nome hieróglifos, do grego hiero "sagrado" e glifos "escrita" – e com seus ritos funerários, que contribuíram para despertar assombro e admiração. Heródoto ficou impressionado com a cheia do Nilo e com sua importância para a agricultura egípcia. Em seu texto mais conhecido sobre o Nilo escreveu o seguinte:
"Em todo o mundo, ninguém obtém os frutos da terra com tão pouco trabalho. Não se cansam a sulcar a terra com arado ou a enxada, nem têm nenhum dos trabalhos que todos os homens têm para garantir as colheitas. O rio sobe, irriga os campos e, depois de os ter irrigado, torna a baixar. Então, cada um semeia o seu campo e nele introduz os porcos para que as sementes penetrem na terra; depois, só tem de aguardar o período da colheita. Os porcos também lhe servem para debulhar o trigo, que é depois transportado para o celeiro". Heródoto, 2,14.

Outro autor grego, Diodoro, por seu lado, declara que o Nilo supera todos os rios do mundo pelos benefícios que trazia ao Egito:
"A maior parte deles lança apenas a semente, leva os rebanhos para os campos e eles enterram as sementes: quatro ou cinco meses depois, o camponês regressa e faz a colheita. Alguns camponeses servem-se de arados leves, que removem apenas a superfície do solo umedecido e depois colhem grandes quantidades de cereal sem grande despesa ou esforço. De uma forma geral, entre os outros povos, todo o tipo de trabalho agrícola comporta grandes despesas e canseiras; entre os egípcios é que a colheita se faz com poucos meios e pouco trabalho". Diodoro Sículo, 1,36.

O fato de Diodoro e Heródoto se impressionarem com o imenso rio, não era estranho, já que a Grécia era uma terra essencialmente árida e seca, onde a prática da agricultura consistia em esforço digno de Titãs. O que os gregos, nem os egípcios, sabiam era que a cheia ocorria em função de chuvas na África tropical e do degelo nas terras altas etíopes.
  • A cheia ocorria em junho em Assuã e, como não eram detidas as águas por barragens ou diques, dirigiam-se para o norte, atingindo Mênfis, cerca de 3 semanas depois.
  • Antes disso, cobria terras aráveis por meio de um processo de infiltração.
  • De agosto a setembro, todo o Vale do Nilo encontrava-se inundado e,
  • Em outubro, o nível das águas baixava, deixando o solo úmido e coberto de uma lama cheia de detritos orgânicos e de sais minerais.
Durante todo esse processo de inundação, o trabalho do camponês era fundamental e diante do espetáculo causado pelas cheias, escapou, ao olhar de Heródoto, as dificuldades e a lida do camponês na limpeza dos canais, na semeadura e na colheita, durante os trabalhos agrícolas.

Assim, a imagem mítica do Egito, entre os gregos, deveu-se à admiração pela cheia do Nilo e ao extraordinário poder gerador de vida que resultava da fertilização, considerada quase mágica, do solo às margens do rio Nilo. Desde o início, o interesse pelo Egito revestia-se de um caráter misterioso, derivado da imensa fecundidade da natureza egípcia e que obscurecia a importância do trabalho humano na valorização dos benefícios das cheias.

A expedição napoleônica, a egiptomania e a egiptologia
A expedição napoleônica ao Egito marca a passagem do conhecimento indireto do Egito para a informação direta, marcando a chamada pré-egiptologia (Heródoto, Diodoro da Sicília, Estrabão, Manetôn). O Egito era para França e para a Europa uma terra desconhecida. Sobre ela havia notícias sobre botânica, geologia e arquitetura, a expedição tinha como objetivo fazer uma descrição científica do vale do Nilo. A nau capitã, chamada O Oriente, levava uma pequena biblioteca e alguns estudiosos do tema. A fundação do Instituto Nacional do Egito, em agosto de 1798, é uma das marcas da expedição do imperador francês Napoleão Bonaparte ao Egito. A piblicação, em 1812, da Description de l'Egypte, resultado das pesquisas feitas pelos franceses, obra com:
  • 12 volumes
  • 4000 páginas
  • 3000 ilustrações,
resultou em um desenfreado colecionismo. A obra aborda temas de astronomia, agricultura, instrumentos musicais, geografia, clima, flora, fauna, artes, ofícios, usos e costumes. As peças egípcias, que antes eram reunidas pela simples curiosidade ao estranho e ao exótico, passam a ter interesse cultural.

A criação se seções egípcias em museus da Itália, França, Alemanha, Áustria, Inglaterra, Suécia, Rússia e nos EUA é um dos reflexos da publicação da Description l'Egypte. Aliada à criação das seções egípcias, assistimos à produção acadêmica, à formulação de catálogos e ao aumento de bibliotecas especializadas. As viagens ao Egito e a divulgação de imagens, litografias, relatos de usos e costumes leva a uma vasta reutilização de motivos do Antigo Egito para a criação de objetos e narrativas contemporâneos. Egiptomania, revificação egípcia, estilo do Nilo, faraonismo, passam a expressar o mesmo fenômeno. As primeiras universidades que instituem os cursos de egiptologia, na estrutura curricular foram:
  1. Sorbone em Paris,
  2. Universidade de Berlim na Alemanha,
  3. Oxford e Londres na Inglaterra e
  4. Universidade de Pisa na Itália
Nos últimos 200 anos, a egiptologia tornou-se uma disciplina científica que é estudada em todos os continentes, com dezenas de universidades envolvidas e com pesquisas a partir de abordagens mais variadas, em diversos contextos. Na América Latina, destacam-se pesquisas do Uruguai, Argentina, com trabalhos arqueológicos de campo no Egito, e do Brasil.


egiptofilia – o gosto pelo exotismo e posse de coisas relativas ao Egito antigo

egiptomania – reinterpretação e re-uso de traços da cultura do antigo Egito de uma forma que lhe atribua novos significados

egiptologia – ciência que trata de tudo do Egito antigo. A busca e o culto pelos vestígios originais, daquela época, caracterizam a egiptologia. Conjuga ciência e imaginação, ao formar a sua substância e partir dos dados acadêmicos, do saber popular, transmitido por viajantes e escritores, e do repertório de crenças e mitos universais.



Origem: livro 'Imagens do Egito Antigo' um estudo de representações históricas de Raquel dos Santos Funari e fotos: imagens Google.

domingo, 14 de junho de 2009

A rainha Touya

esposa de Sethi I e mãe de Ramsés II

Quando Horemheb morre, é um velho vizir, que um conselho de sábios escolhe para governar o Egito: Ramsés, o primeiro monarca de uma longa linhagem que compreenderá 11 Ramsés (que reinou dois anos de 1293-1291 a.C). Seu filho o sucedeu Sethi I – faraó de extraordinária envergadura, 13 anos de reinado de uma verdadeira idade áurea:
  • conteve a ameaça hitita
  • impôs a calma no turbulento protetorado da Síria-Palestina
  • construiu o grande templo de Osíris em Abidos

Para viver ao lado de tal faraó, era necessário uma grande esposa real dotada de uma forte personalidade, foi o caso de Touya, também chamada Mut-Touya, para sublinhar o seu papel de "grande mãe". Gerou o "filho da luz", Ramsés II, que reinou 67 anos.


Guardiã do espírito da monarquia faraônica, viveu o derradeiro apogeu do poder egípcio. Touya sobreviveu pelo menos 22 anos ao seu marido, e durante os primeiros 20 anos do reinado de seu filho, exerceu uma influência considerável na corte.


Uma estátua de  3 m de altura, conservada no Museu do Vaticano, mostra Touya sob um aspecto de mulher colossal e altiva. Ramsés II tinha veneração pela mãe, como mostram estátuas e baixos relevos consagrados a sua memória. Em Tebas, do lado norte do seu "templo de milhões de anos", Ramsés II mandou construir para Touya um pequeno santuário em arenito, com pilares coroados por capitéis representando o rosto da deusa Hathor, a construção exala a rainha-mãe e a sua função teológica. 

É provável que Touya tenha morrido depois da paz do Egito com os Hititas. Com mais de 60 anos, foi enterrada num túmulo do Vale das Rainhas, por certo profusamente decorado e contendo um abundante e luxuoso mobiliário fúnebre. Essa morada eterna foi saqueada e devastada. Uma das tampas dos vasos que continham as vísceras da rainha foi preservada e representa o rosto de Touya com uma pesada peruca, com um fino sorriso, extraordinária juventude, emana dessa modesta escultura que rasgando as sombras da morte, preserva a memória de uma rainha do Novo Império.


Venerada em todo país, Touya foi o perfeito símbolo da rainha mãe, discreta e ativa, mantendo a tradição das mulheres de Estado ligadas à grandeza do Império.


Origem: 'As Egípcias' de Christian Jacq

sábado, 13 de junho de 2009

Construção das Pirâmides II

A arte e a execução de pirâmides estavam em contínuo movimento. Os arquitetos enfrentavam, com sucesso, difíceis problemas de construção e se determinavam a objetivos cada vez mais ambiciosos. Plínio, o velho, em sua História Natural, condenou as pirâmides como: "uma exibição tola e fútil da riqueza régia"; entretanto manifestou sua admiração e surpresa ao imaginar "como as pedras foram erguidas a tamanha altura".


Imagens de egípcios deslocando pesos descomunais sobreviveram, como exemplo: uma pintura com 172 homens arrastando um colosso de alabastro de um monarca da 12ª dinastia, pesando cerca de 60 toneladas. Também pinturas de barcos régios transportando de Elefantina para Tebas, os imensos obeliscos da rainha Hatshepsut. Faziam a viagem por terra com zorras, puxadas pela força bruta de bois e homens que despejavam água no caminho para diminuir o atrito entre a madeira ,para o deslizamento, e o chão. O deslocamento de pesos era uma extensão do transporte terrestre. Apesar de não possuírem alavancas, os egípcios não tinham roldanas nem outras ajudas mecânicas. Construíam rampas inclinadas de terra e cascalho, com escoras para firmar os muros, depositando os blocos de pedra numa altura cada vez maior. Quando a pirâmide estava pronta, as rampas eram removidas. No caso da Pirâmide em Degraus construída em Saqqara e nunca terminada, as rampas ainda estão lá.

A Pirâmide em Degraus de Imhotep tem um desenho surpreendentemente sofisticado, indicando um conhecimento dos conceitos das leis de estabilidade. A pirâmide tem 125 m por 109 m de base. Os blocos tinham que ser cortados em quadrados perfeitos para garantir o assentamento adequado, a distribuição harmoniosa de pesos para evitar o desmoronamento. A pirâmide poderia desmoronar e as pedras caírem pelos lados, para combater, Imhotep inventou paredes de apoio inclinadas para dentro (invisíveis do exterior).

Huni, o último rei da 3ª dinastia, erigiu em Meidum uma pirâmide enorme de 180 m por 200 m de base. Possuía paredes internas de apoio colocadas a cada 10 côvados, o dobro da distância das projetadas por Imhotep (um número talvez insuficiente para manter a pirâmide estável). Foi destruída por uma forte tempestade.

Snefru fundador da 4ª dinastia construiu duas pirâmides imensas em Dahshur:
  1. a Pedra do Sul ou Pirâmide Inclinada – com base de 190 m2
  2. a Pirâmide da Pedra do Norte – 220 m2
Ambas desenvolveram o desenho e a execução das pirâmides, inventando, o princípio de preencher os degraus para dar a distância, uma aparência lisa e suave, e incluiu a capela do vale e a calçada.

Queóps, filho de Snefru, levou o processo à sua última etapa ao erigir a Grande Pirâmide – 230 m2 na base e constituída por 2,3 milhões de blocos de pedra pesando em média 2,5 toneladas cada um, «o mais pesado edifício jamais construído pelo homem». Os blocos internos foram revestidos por uma cobertura de pedra calcária de Tudra, polida e de ótima qualidade. Posteriormente o revestimento foi coberto com grafitos hieroglíficos (que foram roubados), mas no fim do século XII d.C, um escritor árabe declarou que as inscrições restantes no exterior da Grande Pirâmide preencheriam 10.000 páginas. Sir Flinders Petrie arqueólogo que primeiro investigou e mediu a totalidade dessa pirâmide, escreveu que as imprecisões nas extensões e nos ângulos desse enorme prédio podem ser "escondidas por um dedo" e "nem uma agulha nem um fio de cabelo" cabem nas junções das pedras.

Quéfren construiu uma pirâmide em Gizé, que ainda preserva parte do acabamento com as pedras calcárias de Tura e possui um maravilhoso complexo anexo em excelente estado de conservação. O Templo Funerário possui os maiores blocos de pedra jamais usados no Egito. Quéfren se beneficiou de um afloramento rochoso próximo à pirâmide para esculpir sua Esfinge gigantesca, um leão, símbolo da majestade, com cabeça humana.

Miquerinos também construiu uma pirâmide em Gizé, com 108 m2 de base. Morreu subitamente e o projeto nunca foi concluído, mas construiu sua calçada com adobe.

Quéops e Quéfrem colocaram, cada um, em suas pirâmides, avenidas de esfinges, 100 a 120 estátuas de si mesmos, em tamanho real, esculpidas em pedra, nada sobreviveu de Quéops.

Uma das razões da construção das pirâmides se encontra na tentativa de com a sua grandiosidade, majestade e complexidade, frustar os esforços dos saqueadores de tumbas. O local exato da câmara funerária era muito refletido, assim como o esquema de segurança, que não surtiu muito efeito.

O trabalho escravo – podem empilhar as pedras umas sobre as outras, mas não pode assegurar uma arte superior. Havia poucos escravos no Antigo Império, não eram suficientes para fornecer a mão-de-obra de um empreendimento como esse. Os camponeses da região também se dedicavam à pirâmide durante os quatro meses de pausa da agricultura, quando os campos estavam cobertos pela inundação. Ainda não se sabe se o trabalho era compulsório à época do Antigo Império. A idéia de trabalho conscrito para erguer as pirâmides sob o jugo de um chicote é provavelmente enganosa.

A grande pirâmide foi tanto um triunfo da arte em pedra quanto um milagre da organização do trabalho... e não se consegue organizar eficazmente um trabalho por longo tempo se ele for realizado em condições muito ruins.

No Antigo Império o grupo de trabalhadores usado na construção das pirâmides consistia em pedreiros treinados, organizados como em linhas de batalha, divididos em tropas nomeadas e comandados por "generais". Esses homens habilidosos e suas famílias, eram providos pelo Estado, com moradia, comida, roupa e outras necessidades. Os não especializados que se juntavam no período da inundação também recebiam comida e roupas.

Esses trabalhos eram de inspiração e intenção religiosas. As inscrições nas necrópoles do Antigo Império se empenhavam em mostrar que o material não havia sido saqueado de tumbas anteriores e a mão-de-obra utilizada fora bem remunerada. Em uma delas estava escrito:
  • "Construí essa tumba em troca de pão e cerveja ofertados a todos os trabalhadores que a ergueram. Eu os paguei adequadamente com todas as coisas de linho que eles pediram, e, graças a Deus, eles retribuíram, fazendo a sua parte"

Apesar de ter difícil compreensão, a possibilidade do gigantismo das pirâmides pode ser consequência do fervor religioso e não da egomania dos reis recrutando uma multidão servil. A nação egípcia não encarava os trabalhos funerários de seu rei-Hórus como expressões de caprichos privados, mas como tarefas públicas de premente importância que influenciavam diretamente o futuro bem estar de todos. O Egito era composto por uma sociedade coletivista de um tipo bastante rigoroso.




Origem: 'História Ilustrada do Egito Antigo' de Paul Johnson

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A geografia egípcia

O Egito foi o primeiro povo na terra a criar um Estado nação. Incorporando crenças espirituais e aspirações de seu povo, se estabeleceu como uma teocracia. Com uma cultura extraordinariamente forte, confiante e duradoura, se mantendo por 3000 anos, com pureza de estilo. No antigo Egito – Estado, religião e cultura, formavam uma unidade incontestável.

___________A geografia______________
Impossível conceber a civilização egípcia antiga, sem considerar sua situação geográfica:
  1. o deserto
  2. o rio Nilo
  3. o vale produtivo
Os egípcios se conscientizaram tanto da imobilidade quanto do isolamento nacionais. Achavam ter sempre habitado o vale do Nilo como uma raça diferenciada e que o território com seus desertos circundantes, existira desde a criação. Se enganavam, pois houve uma época que todo o Egito foi habitável. Por volta de 10.000 a.C , as chuvas locais diminuíram aceleradamente, e as pastagens e savanas da planície egípcia se transformaram em deserto.

O Nilo parece ter começado a adquirir seu curso atual há cerca de 10.000 anos. Por muitos milênios, a região desde a Primeira Catarata até Tebas foi um lago, ao passo que grande parte do delta permaneceu alagadiça até a nossa era.

Desde os tempos mais remotos, os egípcios dividiram o país em duas partes: 
  1. keme a negra – cultivável e habitável
  2. deshret a vermelha – o deserto
Tal dualismo parece ter sido incorporado pela personalidade egípcia. O próprio país foi visto como dividido em duas metades:
  • o Vale – Alto Egito
  • o Delta – Baixo Egito
A configuração geográfica do Egito se completou com suas barreiras externas:
ao sul – as cataratas cortam o país
a oeste – o Deserto líbio
ao leste – o Deserto Oriental, mar Vermelho e o Deserto do Sinaí
ao norte – o Delta


O Nilo – isolado do resto do mundo, o Egito foi dominado pelos ritmos de seu rio. Entre a baixa das águas e a inundação, o volume aquático do Nilo Azul, se eleva em média de 2133 metros cúbicos por segundo para mais de 106.680. Em Elefantina, próximo a Primeira Catarata, e no Velho Cairo, os antigos egípcios estabeleceram os nilômetros – marcos de pedra à margem do rio para registrar e predizer seu comportamento. O Nilo e sua inundação, chamada Hapi, eram venerados como deuses.



Hapi era barbado, com alismas germinando de sua cabeça e seios femininos pendurados em seu corpo, simbolizando a fertilidade. 
O ano agrícola começava quando as águas transbordavam, o processo tinha que estar pronto até o fim de maio, quando as águas voltavam a subir. O ano agrícola era constituído de 3 temporadas:  1. inundação   2. semeadura   3. colheita

O Nilo além da fertilidade, proporcionou aos egípcios o transporte, e foi o país da antiguidade com melhor comunicação interna. Construíram barcos de sicômoro, a única árvore que o país produzia em abundância. A indocilidade do rio estimulou a criação e a organização de uma economia de armazenamento.

  • A emergência do Egito como uma potência civilizada no fim do 4º milênio antes de Cristo – sua "ascensão" como uma cultura incorporada a um Estado e uma economia – foi uma conquista e um processo sobretudo religioso (um dos primeiros centros no Egito a adquirir uma personalidade religiosa definida e a agir como um foco político foi Heliópolis, com o deus-Sol Rá); e foi exatamente o declínio da vitalidade religiosa que levou a cultura egípcia ao colapso nos primeiros séculos da era cristã. 

Origem: 'História Ilustrada do Egito Antigo' de Paul Johnson

História Ilustrada do Antigo Egito

de Paul Johnson
Editora Ediouro
404 páginas


"A essência do estilo egípcio pode ser definida em duas palavras: majestosidade e autoconfiança. Os egípcios talvez tenham sido o povo mais autoconfiante que o mundo conheceu. Eles não se viam como um povo escolhido; eram, pura e simplesmente um povo". Neste livro o autor analisa a fundo o desenvolvimento e o declínio de uma cultura que sobreviveu três mil anos, mantendo, durante todo esse período, uma notável pureza de estilo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Donas de Casa

No Médio Império foi atribuído à mulher o título de "dona-de-casa" (nebet per), abrangendo a totalidade das suas funções desde a origem da civilização egípcia.

Ao casar a mulher não perde nenhuma parcela da sua autonomia legal e jurídica, mas adquire uma pesada responsabilidade:
  • dirigir efetivamente uma casa de maiores ou menores dimensões
"... Uma mulher que governa bem a sua casa é uma riqueza insubstituível" (Ani)

A palavra egípcia per "casa", significa também "o domínio". A dona-de-casa reina sobre uma casa que não se restringe ao seu núcleo familiar propriamente dito, podendo incluir criados, animais, terras aráveis e até atividades artesanais.

As dimensões da casa e o número de divisões dependem da fortuna dos donos. Em geral:
  • as casas menores de artesãos – tem 3 divisões
  • as maiores – 10 divisões
  • as casas de mestres de obras, dos latifundiários ou dos dignitários da corte – grandes mansões com jardins, lagos e mais de 70 divisões.
As dimensões da casa
As construções em todas as épocas, eram de tijolos não cozido, geralmente um único piso, sempre com um terraço virado para o norte. Pequenas aberturas no telhado, cuidadosamente calculadas, deixavam entrar a luz, mas impediam o calor; e permitiam a circulação do ar, que assegurava uma ventilação natural. Na sala de visitas, colocada sob a proteção do deus Bes, existia um pequeno altar destinado a celebrar a memória dos antepassados. Contíguas aos quartos, várias salas de águas.


Uma grande mansão – tinha celeiros, oficinas, padarias, adegas e estábulos. A cama era um importante elemento mobiliário, cuja cabeceira estava fixada numa moldura em madeira. Havia ainda arcas em madeira, armários, banquinhos, ânforas de vinho e de azeite e os utensílios necessários à cozinha, entre os quais são de notar os fornos fixos ou móveis, fogareiros e marmitas.


Em Deir el-Medina, as mulheres dos artesãos tomavam conta da casa, mas dispunham do precioso auxílio das servas, que o Estado punha à sua disposição. Essas empregadas ocupavam-se, sobretudo, da moagem do trigo.

A higiene
A casa era perfumada, desinfetada regularmente, para eliminar vermes e insetos e a fumigação era a principal técnica utilizada.

– higiene pessoal usava-se:
  1. substâncias saponáceas e esfregões para a pele
  2. a boca era purificada com natrão
  3. a roupa era lavada pelas lavadeiras que as esfregavam com natrão em cima de uma larga pedra e estendidas ao sol para secar
Havia salas de águas e a obrigação de se lavar as mãos e os pés antes de entrar. Eis a grande razão de nenhuma grande epidemia ter dizimado o Egito dos faraós.

Sustentar a casa
Donas de casa mais modestas iam aos mercados ou adquiriam os produtos oferecidos por vendedores ambulantes e caravaneiros.

– preparação dos alimentos:
o alimento base – o pão de cerveja, a técnica era passada de mãe para filha. Peneirar, moer, amassar, pilar, são tarefas tradicionalmente reservadas às mulheres; o cozimento é trabalho sobretudo para o homem.

Por ocasião das escavações, num túmulo feminino da 2ª dinastia, descobriu uma refeição mumificada, o cardápio consistia de:

uma papa à base de cevada
uma codorniz
dois rins assados
guisado de pombo
peixe cozido
costeletas de vaca
fatias de pão
bolinhos redondos
compotas de figo e bagas







Um baixo relevo da 18ª dinastia, descoberto em Saqqara, perto da pirâmide de Téti, situa uma dona-de-casa em uma outra perspectiva:
  • de peruca negra
  • cone perfumado na cabeça
  • vestido branco justo, preso sob os seios
  • um véu de linho transparente
Pratica um ato de adoração a Hathor. A dona-de-casa oferece a deusa outra morada, o templo celestial, onde as tarefas domésticas serão executadas por magia e onde ela será eternamente jovem, celebrada pelo marido como:

...sua irmã, sua amada, digna de confiança, de amável disposição e de voz justa

Uraeus

Uraeus é o termo comum aplicado ao Ārār, adorno em forma de serpente ostentado em coroas dos deuses e faraós do antigo Egito, ergue-se também sobre os monumentos que deveriam ser protegidos. A cobra, pronta para o ataque, com o pescoço dilatado, foi dada aos homens pelo deus-Sol. 




Uma lenda conta que o deus criador, na origem do mundo, foi privado de seu olho. envia então seus mensageiros divinos Shu e Tefnut à sua procura. Tão longa foi a sua ausência que substitui o infiel. "O Olho" enfim de volta, derrete-se em lágrimas ao ver que seu lugar fora ocupado. Os homens assim nasceram de suas lágrimas. E para apaziguar "O Olho", o transforma em «serpente-uraeus» e o coloca na fronte como símbolo de seu poder para combater os rebeldes, e como símbolo da invencibilidade de seu poder, já que os egípcios encaravam a cobra como um símbolo de soberania, também pode ser vista, algumas vezes, sobre a cabeça da deusa Ísis.



A serpente-uraeus se identifica com a deusa Wadjit, divindade tutelar do Baixo Egito também conhecida como: 

1. Wadjyt 
2. Wadjet
3. Uadjet 
4. Uajit 
5. Uajyt
6. Uazet 
7. Uatchet 
8. Uto 
9. Buto  
10. Edjo
 






Representada como: 
  • uma naja usando a coroa vermelha do Baixo Egito, a forma mais comum; 
  • uma mulher usando a coroa vermelha; 
  • uma mulher com cabeça de naja; 
  • como uma naja alada; 
  • uma mulher com cabeça de leoa, raramente; 
  • uma leoa, o que era usual para as divindades associadas ao olho de Rá 
Quando representada sob a forma de leoa, usava o disco solar e o uraeus sobre a cabeça. Seu principal centro de culto era a cidade de Buto, no delta, de onde era originária.


Uraeus significa aquela que se ergue, seu nome significa "Aquela que é Verde" ou "Aquela do Papiro". Na proteção ao rei ela se erguia em sua fronte pronta a injetar veneno em seus inimigos e formava par com a deusa abutre Nekhbet, divindade do Alto Egito. Wadjit era inicialmente uma deusa local em Buto (Per-Wadjit — a cidade de Wadjit), mas seu culto cresceu a ponto dela se transformar na divindade tutelar de todo o Baixo Egito e de receber os títulos de "O Olho de Rá" . Por sua associação com o deus-Sol era considerada uma divindade do calor e do fogo, o que aumentava seu papel como deusa protetora, já que podia usar não apenas veneno, mas também labaredas contra os inimigos do rei.


– A terrível Naja também tinha facetas mais brandas:  
  • tida como protetora das crianças  
  • da hora do parto  
  • uma estreita ligação sua com a natureza 
Nos 'Textos das Pirâmides' afirma-se que a planta do papiro emerge dela e que ela está ligada às forças do crescimento vegetal. Também se acreditava que ela pessoalmente havia criado os pântanos de papiro. Wadjit surge em algumas passagens lendárias: 

Quando, Ísis estava procurando as partes do corpo de Osíris, escondeu seu filho Hórus nos pântanos do delta sob os cuidados da deusa, que inclusive, ajudou a alimentá-lo
Quando Hórus usa o disco solar alado para procurar e derrotar os aliados de Seth, a deusa o acompanha. Essa é uma das origens da ligação da deusa com o faraó, já que os egípcios acreditavam que o faraó era o Hórus vivo

Ela não apenas protegeu Hórus em sua luta, mas também protegia o faraó desde a infância até a morte. Representava a mãe mítica do rei e, em algumas figurações, podia aparecer amamentando-o.

Wadjit era tida como esposa de Hapi, o deus do Nilo. Entretanto, em Buto era considerada esposa de Ptah e mãe de Nefertem (em lugar de Sekhmet ou Bastet), provavelmente por causa do aspecto de leoa que podia assumir. 

A quinta hora do quinto dia de cada mês era consagrada a ela e havia várias festas em sua honra. Em ordem cronológica: 
  1. a primeira ocorria no 10.º dia do 6.º mês do ano egípcio, denominado mechir, correspondente ao nosso 25 de dezembro; 
  2. outra acontecia no 7.º dia do 10.º mês do ano egípcio, denominado payni, correspondente ao nosso 21 de abril; 
  3. as festividades maiores, entretanto, ocorriam no 11.º mês do calendário egípcio, denominado epiphi, mês de colheita, correspondendo ao período entre meados de maio e meados de junho do nosso calendário; 
  4. finalmente, havia outra cerimônia no solstício de verão, no 8.º dia do 12.º e último mês do ano egípcio, denominado mesore, correspondendo ao nosso 21 de junho. 

A partir da 18ª dinastia (c. 1550 a 1307 a.C) a deusa começou a ser representada como protetora das mulheres reais e muitas das rainhas principais, passaram a usar coroas com vários minúsculos uraei.

Origem:  O Fascínio do Antigo Egito   e   Wikipédia

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As Divinas Adoradoras – sacerdotisas



Durante cerca de meio século, de 1000 a.C, até 525 a.C, uma dinastia de mulheres – as "Divinas Adoradoras" governaram a grande cidade de Tebas – sacerdotisas iniciadas nos mistérios de Amon. O faraó concedeu-lhes um poder espiritual e temporal sobre a principal cidade santa do Alto Egito.



Todas as rainhas  "esposa do deus" exerciam esta função, a primeira foi Iimeret-nebes,  "A amada do seu senhor" – aparece em uma estatueta datada do Médio Império com um vestido cingido e transparente, sandálias douradas, braços bem esticados ao longo do corpo, dedos finos e compridos, olhos pintados, busto alto, seios redondos, cintura muito fina, usa uma peruca removível e sorri. O senhor que a deseja é o deus que procura exprimir o seu poder de Criação, que ela deve apaziguar para torná-lo benéfico.

O celibato 
Uma silhueta graciosa, elegante, um grande toucado composto de um tecido imitando o despojo de um abutre, a serpente uraeus na fronte, um longo e cingido vestido, um largo colar e pulseiras, assim apareciam as Divinas Adoradoras que tinham a capacidade de "atar todos os amuletos" – praticar a magia do Estado, cujo segredos conheciam.

– As Esposas de Amon
  • não faziam voto de castidade, 
  • não possuíam marido humano, 
  • não tinham filhos, 
  • não viviam reclusas,  
  • passavam a maior parte do tempo no interior do templo de Amon

O ritual
A instalação de uma Divina Adoradora era uma verdadeira coroação. Assistiam numerosos sacerdotes e importantes cortesãos. Ela entrava no templo, guiada por um ritualista. O escritor do livro divino e novos sacerdotes puros revestiam-na dos ornamentos, das jóias e dos amuletos relativos à sua função. Proclamada soberana da totalidade do circuito celeste percorrido pelo disco solar, e enunciava-se os títulos daquela de que se dizia que "presidia à subsistência de todos os seres vivos".

Os nomes das Divinas Adoradoras, como os dos faraós, estavam inscritos em rolos. Formavam uma dinastia e tinham privilégios reais. Eram iniciadas nos mistérios da sua função pelo rito da "subida real" ao templo, conduzida pelo seu divino esposo Amon. Nas secretas salas de Karnak, ela recebia os ensinamentos relativos ao seu papel cósmico do faraó e por isso a Divina Adoradora tinha a capacidade de:
  • consagrar monumentos
  • dirigir ritos de fundação
  • cravar estacas delimitando recintos sagrados
  • proceder aos sacrifícios de animais
  • consagrar oferendas e
  • oferecer Maât, a Ordem eterna, a si própria
Pode ser representada como uma esfinge, privilégio faraônico, além disso era chamada para agir no ritual de regeneração da festa sed «revivificar o poder mágico do rei, esgotado ao fim de alguns anos de reinado, essa celebração era estritamente reservada ao faraó»

Templos
Não constroem grandes templos, mas pequenas capelas e só em Tebas. As grandes construções da época dita "etíope", a 25ª dinastia, apogeu das Divinas Adoradoras, devem-se apenas aos faraós. A realeza era mais espiritual que temporal, a influência se limitava à região tebana, mas participavam da eternidade estelar e solar dos faraós. Seus monumentos funerários revestem-se de grande interesse. Sua capelas:
  1. Medinet Habu – nas paredes se desenrola um ritual revelado por textos que ainda não foram sujeitos a um estudo aprofundado
  2. Karnak – dedicadas a "Osíris, senhor da vida", a "Osíris, no coração da flor", e a "Osíris, regente da eternidade": esta última capela é um edifício excepcional situado perto da grande porta do Oriente, o nome completo do monumento é "a grande porta da esposa do deus, a Divina Adoradora Amenirdis, venerada por todos os que atingiram o conhecimento da morada do seu pai, Osíris, regente da eternidade". 
Para além da porta do Oriente, do último templo das Divinas Adoradoras, nada mais existe. Nada mais, além do Sol de um outro mundo.

Sucessão
Era feita por adoção. Escolha de acordo com o faraó reinante, propunha uma princesa da sua família. A titular chamava-se "mãe" educava a "filha" para lhe suceder e revelar os segredos da alta função que devia assumir. As duas reinavam juntas até o afastamento voluntário da "mãe", ou até o seu desaparecimento.

Na época ptolomaica, muitos séculos após a morte da última Divina Adoradora, esse título designava a grande sacerdotisa de Tebas, última recordação da dinastia feminina que havia reinado na grande cidade.

Tal como a rainha, a Divina Adoradora foi assimilada a Tefnut, todos os ritos de que estava encarregada eram praticados "como para Tefnut, da primeira vez". Sentada no trono de Tefnut, a Divina Adoradora encarnava igualmente Maât, e consolidava o torno do oleiro que cria os seres.

___________A dinastia das Divinas Adoradoras____________

  1. Maât-ka-Rê – filha do faraó Psusennes I (1040-993 a.C), seu sarcófago em madeira foi encontrado em Deir- el Bahari. Seu rosto gravado numa folha de ouro é de uma beleza soberana, com uma peruca de compridas madeixas cingida por um diadema com uraeus, o corpo coberto de símbolos e divindades protetoras, com olhar vivo e profundo.
  2. Henut-Tauy – exerceu suas funções na primeira metade do século X a.C.
  3. Mehyt-Usekhet – a "poderosa deusa Mehyt" que oficiou na segunda metade do século X a.C.
  4. Karomama – primeira metade do século IX a.C , adquiriu certa celebridade graças a uma estatueta de bronze incrustada em ouro, cobre e prata: com um grande colar e delicadas jóias, trajando um vestido plissado; grandes asas envolvem a parte inferior do corpo, fazendo dela uma mulher pássaro. Tem uma capela funerária em sua homenagem no recinto de Ramesseum, o templo de milhões de anos de Ramsés II.
  5. Kedemerut – nada sabemos
  6. Chepenupet I – filha do faraó líbio Usorkon III, era viva ainda no ano de 700 a.C, foi representada na capela de Osíris em Karnak, mas sua capela em Medinet Habu foi destruída.
  7. Amenirdis "a antiga" – filha do rei etíope Kachta, teve um longo reinado. Sua belíssima capela em Medinet Habu está coberta por uma admirável abóbada em pedra.
  8. Chepenupet II – reinou durante 50 anos a partir de 700 a.C, atravessando o reinado de 3 faraós. Filha do conquistador Piankhy. Alguns retratos aparece como uma africana de maçãs do rosto salientes e com quadris e coxas pronunciadas. Aparece muitas vezes em capelas funerárias de Karnak e Menamud. Assistiu à partida dos etíopes e viveu o início da 26ª dinastia.
  9. Amenirdis "a jovem" – viveu à sombra da sua poderosa "mãe" Chepenupet II.
  10. Nitócris "a grande" – inaugura o período chamado "saíta" «os faraós originários da cidade de Saís, no Delta, tomaram como modelo o Antigo Império e regressaram aos valores da idade áurea» . Restaurou o palácio das Divinas Adoradoras, os altares, os pavimentos em pedra e a cozinha foram reconstruídos. Novecentos hectares de sete províncias do Alto Egito e quatro do Baixo Egito formaram seu domínio. Morreu em 585 a.C.
  11. Ankhmes-Neferibrê – filha do rei Psamético II. Mandou isntalar uma porta triunfal na parte norte de Karnak, duas pequenas capelas na aléia que conduzia ao templo de Ptah, uma capela de Osíris e reinou durante cerca de 70 anos.
  12. Nitócris II – filha do faraó Amasis, última Divina Adoradora. Em 525 a.C , os persas invadiram Egito e devastaram Tebas. Não sabemos o destino que os bárbaros persas reservaram a última Divina Adoradora.

Apelo das Divinas Adoradoras
Entre as riquezas arquitetônicas do grande templo de Medinet Habu, na margem ocidental de Tebas, contam-se as capelas das Divinas Adoradoras. Num dos lintéis, podemos ler este "apelo aos vivos":

Ó vivos, que estais na Terra e que passais por esta morada da energia criadora (ka) que Chepenupet II construiu para seu pai, o deus Anúbis, o qual preside ao pavilhão divino, e também para a Divina Adoradora Amenirdis, de voz justa! Assim como amais os vossos filhos e gostaríeis de os ver conservar as vossas funções, as vossas casas, lagos e canais, conforme vos foi desejado quando vós mesmos os construíeis e abríeis, assim como aspirais a doce e perfumada brisa da grande aléia e seguis o deus venerável, de grande poder, em cada uma das suas magníficas procissões, assim como celebrais as festaas do grande deus que está em Medinet Habu e as vossas esposas praticam os ritos em honra de Hathor, soberana do Ocidente, e que lhes permite gerar machos e fêmeas sem enfermidades e sem sofrimentos, eu vos peço: pronunciai a fórmula "Oferenda do Faraó"
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Origem: 'As Egípcias' de Christian Jacq

terça-feira, 9 de junho de 2009

O segredo da beleza das egípcias

No sarcófago da princesa Kauit, esposa do faraó Montuhotep-Nebhepet-Ra, do início do Médio Império, aparece um momento privilegiado na vida de uma egípcia: como se embelezar. A princesa não tem um rosto muito sedutor, sérias ou mesmo austeras, as suas feições chegam a ser ingratas. Sacerdotisa de Hathor, mandara escavar a sua sepultura sob o templo do faraó, em Deir el-Bahari, e foi nessa sepultura que se encontrou o magnífico sarcófago de calcário imortalizando uma cena:
  • sentada numa cadeira de espaldar alto e envergando um vestido comprido e cingido que lhe deixa os seios à mostra, com o pescoço ornado com um colar de contas, Kauit segura delicadamente, entre o polegar e o indicador, uma taça de leite que lhe foi apresentada pelo seu intendente, proferindo as palavras essenciais "Para o teu ka senhora".


A peruca – era um ornamento indispensável e muito apreciado, e evoluiu ao longo das dinastias, tendo sido usada por mulheres e homens. Para uma mulher, uma bela peruca era um fator decisivo de sedução e elegância. Eram confeccionadas com fibras vegetais ou com cabelo humano, e mais raramente com pêlo animal. Em todas as épocas foram apreciadas as madeixas numerosas, as tranças múltiplas, ungidas de perfumes e produtos capilares. Uma peruca bem feita despertava a admiração dos poetas, que elogiavam a beleza da mulher e o encanto do seu rosto.

À simplicidade do Antigo Império opõe-se um luxuriante Novo Império:
um adorno de cabelos, descoberto no túmulo de uma princesa que viveu na corte de Tutmósis III, contava nada menos que 900 rosetas de ouro que cobriam toda a peruca. É provável que a cabeleira estivesse relacionada com a sexualidade, graças ao poder da sedução que conferia, um belo penteado tornava a mulher desejável. Soltar o cabelo e exibi-lo despenteado era tido como um "sinal" erótico.




Os "cones perfumados" são um enigma. Aparecem nas cabeças dos nobres tebanos do Novo Império, em ocasiões de festas e banquetes. Supõe-se que o calor derretia lentamente o cone, liberando suaves odores à medida que a noite avançava.





As egípcias tinham grande cuidado com a manutenção do seu cabelo. O óleo de rícino era o produto de base. Esmagavam sementes de rícino para obter um óleo que punham na cabeça. A receita 468 do Papiro Médico de Ebers, destinava-se a combater eficazmente: 
  • a calvície: 
– "patas de lebréu" certamente o nome de uma planta;
– caroços de tâmaras;
– casco de burro cozidos em lume vivo num pote com azeite
Devia ungir energicamente a cabeça com o produto obtido. 

  • o cabelo grisalho: 
para escurecer utilizava-se sangue de um boi negro cozido em azeite.

Outra cena do sarcófago de Kauit:
  • uma peruca redonda de finos caracóis e um xale sobre os ombros, segura uma flor de lótus na mão esquerda, recolhe um pouco de unguento que a sua serva lhe estende e cujo indicador da mão direita sustenta um leque em forma de asa de pássaro.

                          ______________Produtos de beleza________________  
Para além da higiene as egípcias possuíam um impressionante número de produtos para a beleza. Conservavam-nos em preciosos cofres, fabricados com as mais belas madeiras, incrustados com metal ou marfim e delicadamente decorados. No interior pequenas gavetas para guardar perfumes, cosméticos, pós, unguentos, pauzinhos e colheres que serviam para aplicar os produtos na pele, pinças para depilar, e um ou mais espelhos, pentes e ganchos.

Os mais célebres objetos de beleza egípcio são as colheres para os pós: de cerca de 30 cm em madeira ou marfim, têm muitas vezes a forma de uma jovem nadadora nua, estendida de bruços, de cabeça erguida e o pescoço bem reto, as finas pernas juntas e esticadas; de braços estendidos seguravam uma tacinha contendo pinturas ou incenso. 

Perfumes – tal como hoje o definimos «óleo etérico numa solução alcoólica» não parece ter existido no Antigo Egito. Os perfumistas fabricavam os seus produtos a partir das plantas aromáticas maceradas com óleos gordurosos e praticavam a extração de essências florais.

As divindades assinalavam a sua presença aos humanos com um perfume tão suave que alguns caíam em êxtase. O perfume é associado ao sopro vital, à doce brisa do norte que vivifica o organismo quando o Sol se põe, ao fim de um dia de calor.

Pós e cosméticos –  arrumados em tabuinhas com alvéolos eram utilizados por toda a população. Os mais usados eram um pó negro, à base de malaquita, que permitiam às elegantes prolongar a linha das sobrancelhas e acentuar o encanto do seu olhar. Serviam também para afastar os insetos e o vento.

Unguentos – as egípcias os usavam para se manter magras, impedir a flacidez dos seios, enrijecer a carne e evitar acne. Para purificar a pele e mantê-la jovem e fresca, esmagavam-se cera, óleo fresco de moringa, goma de terebintina e erva de Chipre, obtendo um emplasto vegetal.

Com tantas horas passadas embelezando-se, os potinhos para os pós, em alabastro ou em madeira, tem formas delicadas e inesperadas:
  1. uma vaca deitada numa barca
  2. antílopes
  3. gansos
  4. patos
  5. macacos
  6. jovens nadadoras
No caso do pato ou do ganso, o corpo do animal era esvaziado para servir de conteúdo, e as asas usadas como tampa.

Origem: 'As Egípcias' de Christian Jacq

Egito

Duas grandes forças: o rio Nilo e o deserto do Saara, configuraram uma das civilizações mais duradoras do mundo. Todos os anos o rio inundava suas margens e depositava uma camada de terra fértil em sua planície aluvial. Os egípcios chamavam a região de Kemet, "terra negra". Esse ciclo fazia prosperar as plantações, abarrotava os celeiros reais e sustentava uma teocracia – encabeçada por um rei de ascendência divina, ou faraó – cujos conceitos básicos se mantiveram inalterados por mais de 3 mil anos. O deserto, por sua vez, atuava como barreira natural, protegendo o Egito das invasões de exércitos e idéias que alteraram  profundamente outras sociedades antigas. O clima seco preservou artefatos como o Grande Papiro Harris, revelando detalhes de uma cultura que ainda hoje suscita admiração.

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