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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Cruzeiro pelo Nilo

O Nilo, coluna vertebral do território egípcio, foi a principal via de comunicação na época faraônica. Uma forma diferente de ver o país, do Cairo até a Núbia, consiste em utilizar o meio de transporte de que já se serviam os antigos egípcios: o barco. Quer se viaje em luxuosos cruzeiros, em ferrys quer nas típicas falucas, a paisagem é sempre fascinante.

Uma vez no Egito, o ponto de partida da viagem é o Cairo. Em um dos braços do rio adaptados para fazer o percurso inicia-se um cruzeiro que termina em Assuã, depois de subir o Nilo. Durante a viagem, vale a pena fazer algumas paradas para visitar certos lugares interessantes próximos às margens ou, simplesmente, para desfrutar a paisagem.


O Baixo Egito
À medida que o barco penetra no país, o Nilo se parece cada vez mais com o rio de 5000 anos atrás. Os homens compartilham a água com os animais, e a vegetação das margens atrai uma multidão de espécies. É fácil ver ibis, pássaros sagrados para os antigos egípcios, e até poucos anos atrás, o Nilo ainda contava com a presença de outro animal sagrado, mas muito perigoso – o crocodilo. Entrando no Médio Egito, pode parar em Beni Hassan. No local onde o barco atraca, deve-se tomar um transporte terrestre para chegar a um interessante conjunto de túmulos do Médio Império. Da cobertura do barco, pode se ver o conjunto de Gizé, tal como se avistaria do cais do templo chamado Vale.

De regresso ao barco, na margem oposta, podem visitar-se os restos da antiga Hermópolis Magna, ou ainda parte de um templo da Época Ptolomaica dedicada ao deus Tot. Mais para o sul fica Tuna el-Guebel, com túmulos de personagens da época greco-romana e de íbis e babuínos mumificados. Muito próximo encontra-se uma estela que marcava o limite da cidade de Akhenaton ou Tell el-Amarna, onde se faz uma paragem. Entre os locais mais interessantes para visitar encontra-se Abidos, com o templo de Set I dedicado a Osíris; os seus baixos-relevos estão muito bem conservados e no seu interior pode ver-se uma das listas reais mais famosas, com os nomes dos faraós esculpidos numa das suas paredes. Antes de chegar a Luxor, o barco para em Dendera, onde se visita um templo da época greco-romana dedicado a Hathor. Embora em processo de reconstrução, oferece uma ideia bastante precisa de como era um templo egípcio. A partir da açotéia, onde existem várias capelas, desfruta-se de uma vista magnífica de todo o complexo. É curioso observar que o lago sagrado, antes com água, ainda conserva a umidade e permite o crescimento de plantas no seu interior. O pôr-do-sol contemplado da açotéia do templo de Dendera é um espetáculo mágico.


Tebas, e a margem oriental
A atual cidade de Luxor está construída sobre parte da antiga Tebas, uma das capitais do Egito faraônico. Na margem oriental do Nilo, encontram-se os principais edifícios de culto:
  • o complexo sagrado de Karnak e a 3 km, o de Luxor.
A grandiosidade de Karnak pode ser apreciada logo que o barco atraca no cais, de onde se avista a avenida de esfinges que conduz ao interior. As suas salas, com autênticos bosques de colunas e os seus baixos-relevos revelam o que se quer dizer quando se fala de uma obra "faraônica". O trajeto até Luxor pode ser feito de carro, o que permite desfrutar de um passeio pela avenida marginal do Nilo. O templo, com um interessante espetáculo noturno de luz e som, surpreende pela sua grandiosidade e pela presença de uma mesquita no seu interior.


Tebas, a margem ocidental
Dedicada a outros templos e a diversos edifícios funerários. Saindo do cais, de ônibus, taxi, bicicleta ou mesmo em lombo de burro, chega-se a Deir el-Bahari, onde se encontram os templos funerários de Mentuhotep II e de Hatchepsut. Do outro lado da montanha na qual estes templos estão escavados encontra-se o Vale dos Reis. O túmulo de Tutâncamon e o de outros faraós menos populares merecem uma visita. Um pouco mais longe, em Deir el-Medina, ficam os túmulos do Vale dos Nobres, não tão conhecidos mas muito bem conservados. O túmulo de Nefertari, no Vale das Rainhas, é um belo exemplo de túmulo real. E se os templos de Karnak e Luxor são majestosos, os de Medinet Habu e Ramsés não deixam a desejar, sendo visita quase obrigatória, sem esquecer os famosos colossos de Memnon.


Viagem ao sul
A caminho de Assuã vemos alguns dos templos mais espetaculares de todo o Egito. O primeiro é o de Esna, do qual só se conserva a sala hipostila, construída na época do imperador Claudio. À medida que se avança para o sul, o calor é mais sufocante e a vegetação que cresce nas margens do rio torna-se mais espessa. O conjunto dedicado ao deus-falcão Hórus em Edfu conservou-se em muito bom estado por ter ficado praticamente coberto pela areia até o início do século XX. Este templo segue as diretrizes dos templos ptolomaicos, com pilones na entrada, pátio com estátuas de falcões a seguir e finalmente, o templo propriamente dito. Um pouco mais ao sul fica o templo de Kom Ombo, dedicado ao deus crocodilo Sobek, animal sagrado do qual se podem ver algumas múmias, e ao deus-falcão, Haroéris. Esta é a última paragem antes de chegar a Assuã. Aqui a população é heterogênea e caracteriza-se pela sua afabilidade. Um passeio de falua ao entardecer pode ser um dos momentos mais idílicos do cruzeiro. Numa dessas embarcacões, chega-se ao templo de Filae, transferido para a ilha de Agilkia devido à construção da barragem de Assuã. Nesse local, último reduto da escultura faraônica, pode-se visitar o templo ptolomaico de Ísis e o seu nilômetro. Para chegar a Abu-Simbel, é necessário fazer uma excursão de ônibus ou um pequeno percurso de avião. Apesa da elevadas temperaturas da região, os templos que aqui se podem visitar são a joia de ouro do cruzeiro pelo Nilo.



imagem do bolg Khan el Khalili-Egypt



Fonte: Egitomania, o fascinante mundo do antigo Egito - fascículos 2001

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Música e instrumentos musicais

"Nada mais insípido, monótomo, insignificante" que a música local, escrevia o francês Eugène Gellion-Danglar em 1867, numa de suas Lettres d'Egypte (Cartas do Egito). Para o autor, essa música não passava de uma "mistura confusa e indecisa". Os sons "fundem-se uns nos outros", o ritmo é quase sempre o mesmo, e "tudo isso não forma nenhuma espécie de harmonia".

Na Europa, ouvir um concerto é um ato silencioso. No Egito, a falta de reação do auditório seria tomada como desinteresse. Boa música suscita emoção no público, provoca tarab, um prazer próximo ao êxtase.



Os artistas que surgem nesse período, na corte quedival, são acompanhados por pequenas orquestras, com instrumentos tradicionais:
  • ud – alaúde de braço curto e sonoridade grave
  • qanun – espécie de citara em forma de trapézio, que é posta deitada numa mesa ou no colo
  • rababa – viola com uma ou duas cordas, cuja caixa feita de coco recebe uma membrana de couro
  • flauta nay – pedaço de bambu com 6 furos
  • arghul – clarinete duplo

Alguns desses instrumentos lembram os representados em baixos-relevos faraônicos. Mas daí a falar de uma música nacional, milenar, que teria atravessado os séculos! Vestígios dessa música subsistem nas tradições rurais do Alto Egito e na liturgia copta, mas as harpas e as liras antigas desapareceram. Já o Egito árabe foi marcado por influências turcas e persas.

O disco surgiu às vésperas da Primeira Guerra Mundial. À música folclórica, tocada por desconhecidos, e à música "erudita" reservada à corte quedival, somou-se a canção ligeira, com letras ousadas, quando não maliciosas, a taqtuqa. Paralelamente, o surgimento de salas de espetáculos incentivou compositores em evidência, como Sayed Darwish, a criar óperas de coloração nacionalista, muito apreciadas pelo público.

Na década de 1930 houve nova mudança com o aparecimento do filme musical e dos gigantes da canção egípcia moderna. Apesar de ser filho de um modesto muezim e ter começado salmodiando o Corão, Mohammed Abdel Wahab (1897-1991) sofreu influências ocidentais e as impôs no Cairo graças a um imenso talento.

A canção egípcia impôs-se então em todo o mundo árabe, "do Oceano ao Golfo". Os monstros sagrados dessa época atuaram como protagonistas em filmes musicais. Mas novas influências ocidentais originaram uma dance music local, com órgãos, guitarras elétricas, percussões e sintetizadores. Mais curtas e menos elaboradas, canções "para os jovens" apareceram em eco ao rai magrebino. Ao mesmo tempo, nos subúrbios e nos bairros modestos das grandes cidades nascia uma música chaabi (popular). Mesclando o rural e o urbano, com intérpretes de voz potente e inflexão irreverente, muitas vezes provocante, desagradava aos ouvidos mais delicados.

A música egípcia nunca foi tão diversificada quanto é hoje. Os religiosos sufistas continuam responsáveis pela música em ocasiões importantes (casamentos, circuncisões, enterros, muleds), nas quais costumam salmodiar a meia voz suratas do Corão ou recitar admiravelmente os 99 nomes de Deus.

A música tradicional tem seu lugar assegurado. Vários grupos, bem sucedidos em suas respectivas regiões, ganharam notoriedade nacional e até internacional. Depois do trompete, do saxofone e do acordeão, outros instrumentos ocidentais foram incluídos nas orquestras. Mas ainda é ao ritmo da darabuka (ou tabla) que se faz música popular. Trata-se de um vaso de terracota em forma de funil, sobre o qual se estica um pedaço de couro de cabra a ser percutido com as pontas dos dedos depois de colocar o instrumento debaixo do braço ou entre as coxas. Mesmo sem a darabuka, qualquer grupo de jovens espontaneamente começa a cantar e a bater palmas em substituição àquele instrumento.



Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

sábado, 14 de agosto de 2010

Gastronomia

Egito Antigo
Carne
Consumida em quantidade, principalmente a do boi. O assim chamado boi africano é um animal com chifres avantajados, de grandes proporções e rápido no caminhar. Esse animal era submetido a um regime de engorda que o tornava enorme e pesado, até o ponto de ficar impossibilitado de andar. Só então estava pronto para o abate. Ao que parece, a carne era servida geralmente cozida, provavelmente em molho, mas havia alguns tipos de carne que eram assadas no espeto. Entretanto, a carne era uma comida de luxo para a maioria das pessoas, que talvez só a consumissem em ocasiões especiais como, por exemplo, nos banquetes funerários. Pedaços de carne são representados frequentemente nos túmulos em estelas, ou compondo o conjunto de produtos dispostos nas mesas de oferendas como eterno alimento para o falecido.

Aves
Uma vez que a galinha só foi introduzida no Egito tardiamente, criava-se e consumia-se outros tipos de aves em grande escala. Em papiros que registram donativos aos templos, as quantidades de aves citadas são impressionantes. Um deles menciona 126 mil e 200 aves, dentre as quais 57 mil e 810 pombos. A caça, portanto, era uma atividade bastante cultivada pelos egípcios. Os galináceos eram consumidos grelhados, de preferência. Entretanto, Heródoto nos conta — e os documentos confirmam a informação — que os egípcios comiam crus as codornizes, os patos e alguns pequenos pássaros que tinham o cuidado de salgar antes. Todos os pássaros restantes eram comidos assados ou cozidos. As aves aquáticas eram abertas e postas a secar. Os templos as recebiam vivas, secas ou ainda preparadas para consumo a curto prazo.

Peixe
Embora em algumas localidades egípcias fosse proibido consumir certas espécies de peixe em datas específicas, a maior parte da população comia peixe normalmente. Por sua vez, os habitantes da região do Delta e os que moravam às margens do lago Fayum eram pescadores por profissão. Quanto aos peixes, Heródoto informa que alguns eram comidos crus e secos ao sol ou postos em salmoura. Entretanto, várias outras espécies eram comidas assadas ou cozidas. Uma vez pescados, os peixes eram estendidos no solo, abertos e postos a secar. Visando a preparação do escabeche, eram separadas as ovas dos mugens. Mais uma vez um papiro cita a quantidade de peixes doados a três templos: 441 mil. Os templos recebiam não apenas peixes frescos, mas também secos. Como se vê, a pesca era outra atividade importante.

Legumes
Rabanetes, cebolas e alhos fazem parte da dieta egípcia, sendo que estes últimos eram muito apreciados. Melancias, melões e pepinos aparecem representados com freqüência nas pinturas dos túmulos, sendo que neles os arqueólogos também encontraram favas, ervilhas e grãos de bico. Nas hortas domésticas cultivava-se a alface, a qual os egípcios acreditavam que tornava os homens apaixonados e as mulheres fecundas e, assim, consumiam-na em grande quantidade, crua e temperada com sal e azeite. Min, o deus da fecundidade, tem às vezes sua estátua erguida no meio de um quadrado de alfaces, sua verdura preferida. Seth, segundo nos conta a lenda, era outro deus apreciador de alface.

Frutas
Com relação aos frutos, consumiam uvas, figos e tâmaras, sendo que estas últimas também eram empregadas em medicamentos. A romeira, a oliveira e a macieira foram introduzidas no Egito somente por volta de 1640 aC. O azeite era utilizado não apenas na alimentação, mas também para iluminação. Frutos como laranjas, limões, bananas, peras, pêssegos e cerejas não eram conhecidos dos antigos egípcios, sendo que os três últimos só passaram a ser consumidos na época romana.

Outros
O leite era recolhido em vasos ovais de cerâmica tampados com um punhado de ervas, evitando-se fechar totalmente a
abertura, para afastar os insetos do líquido. O sal era utilizado na cozinha e em medicamentos. O papel do açúcar era desempenhado pelo mel e pelos grãos de alfarroba. Embora o mel e a cera de abelha fossem buscados no deserto por homens especializados nesse ofício, também havia criação de abelhas no exterior das residências. Para a formação das colméias colocavam-se jarras de cerâmica e os apicultores caminhavam sem proteção por entre os insetos, afastando-os com as mãos nuas para recolher os favos. O mel era mantido em grandes tigelas de pedra, seladas. Em suas iguarias os egípcios empregavam ainda manteiga ou nata e gordura de pato ou de vitelo.

Pães e bolos
Eram preparados nas casas das pessoas ricas e também nos templos, o que incluía a moagem dos grãos. É possível, entretanto, que moleiros e padeiros independentes trabalhassem para atender as pessoas humildes. A panificação era um trabalho conjunto de homens e mulheres.

Bebida
A número um dos egípcios era a cerveja, consumida em todo o país, tanto nas cidades como nos campos. Era feita com cevada ou trigo e tâmaras e sorvida em taças de pedra, faiança ou metal, de preferência em curto espaço de tempo, pois azedava com facilidade. O vinho, sem dúvida, ficava em segundo lugar na preferência etílica dos egípcios, havendo grande comércio do produto. Eles apreciavam o vinho doce, de uma doçura que ultrapassasse a do mel.

Os egípcios alimentavam-se sentados, a sós ou acompanhados, diante de uma mesinha sobre a qual eram postas as provisões. Os rapazes sentavam-se sobre almofadas ou esteiras. Pela manhã não havia a reunião da família para a refeição. O marido e a esposa eram servidos em separado. Ele, tão logo se aprontara e ela ainda quando a penteavam ou logo após. Pão, cerveja, uma coxa de galináceo e um bolo era um bom repasto para o esposo.

– A relação das grandes refeições compreendia:
  • carnes, galináceos, legumes e frutos da estação, pães e bolos, tudo bem regado com cerveja.
Não é de todo certo que os egípcios, mesmo os da classe rica, comessem carne a todas as refeições. Só podiam mandar abater um boi aqueles que estavam certos de o consumir em três ou quatro dias, isto é, os grandes proprietários que tinham um pessoal numeroso, o pessoal do templo, os que davam um festim. As pessoas humildes só o faziam para festas e peregrinações.

Os arqueólogos, em suas escavações, encontraram pratos, terrinas, travessas, cálices, facas, colheres e garfos, o que abre a possibilidade para o consumo de sopas, purês, pratos guarnecidos acompanhados de molho, compotas e cremes. As baixelas dos ricos eram de pedra: granito, xisto, alabastro e uma certa espécie de mármore. As taças de formato pequeno eram de cristal. Por outro lado, o material pictórico deixado pelos egípcios mostra que, à mesa, eles se serviam muito dos dedos (comia-se com as mãos).

Fonte: curiosidades egipcias



Mais recente
A gastronomia não é o forte do Egito. Sua cozinha, frequentemente inspirada em tradições vizinhas (turca ou sírio-libanesa) carece de diversidade e de imaginação. Na verdade, distingue-se pelos excessos. O abuso de samna (espécie de manteiga derretida) torna os pratos demasiado gordurosos. Um dos pratos mais populares, vendido nas ruas:

  • kochari – mistura indigesta de arroz, macarrão, lentilha e cebola frita, tudo regado com molho de tomate e muito temperado.

Com os legumes recheados, a história é outra. Os egípcios são exímios na arte de embalar recheios em pimentões, berinjelas e folhas de parreira.
  • Bamya – pequeno chifre grego, às vezes cozido com carne de carneiro, mas sempre acompanhado de molho e arroz com aletria.

A iguaria do rei é a molokheya. Num primeiro momento, o prato pode surpreender, mas um paladar treinado sabe apreciar suas qualidades. Há um modo especial de picar as folhas de juta comestíveis, que são a base do prato. As folhas são acrescentadas por último a um caldo feito com dentes de alho, coentro seco triturado e manteiga. Essa sopa verde é acompanhada de arroz, carne ou frango, vinagre e pão seco, mas não de qualquer jeito: cada conviva dispõe os ingredientes no prato à sua maneira, segundo um rito pessoal. Comer a molokheya assemelha-se a uma liturgia. O califa fatímida Al-Hakim (996-1021), para quem uma loucura a mais ou a menos não fazia diferença, tinha proibido esse prato.


Sobremesas


É preciso citar o om ali – folhas de massa cozida, mergulhadas em leite com açúcar, pistaches, amêndoas e nozes. A combinação é saborosa. Há um creme com leite aromatizado, bem mais leve, a mehallabeya.





Carne
Comer carne todos os dias é um luxo. Muitas aldeias do Alto Egito nem possuem açougue. Alimentar-se bem continua a ser um privilégio, e metade das famílias gasta mais de 3/4 de sua renda com alimentação. Na classe média, um homem não se sentiria de fato casado, se chegasse em casa e não encontrasse o ensopado cotidiano. "O caminho mais curto para o coração de um homem passa pelo estômago", afirma um ditado que as esposas levam a sério.

  • A obesidade se generaliza de maneira assustadora na população, que abusa não só dos alimentos feculosos e da gordura, mas também do açúcar, quase um objeto de culto. Qualificar alguém de sokkar (açúcar), assal (mel) ou charbatt (xarope, sorvete) é uma forma de elogiar suas qualidades ou sua beleza.

Sementes
Não se pode falar em gastronomia egípcia sem mencionar tassali (divertimentos) e, principalmente, esse esporte nacional que é o consumo de lebb. Nada é mais propício ao devaneio que essas sementes de melancia ou de abóbora (apelidadas de "morenas" e "brancas") secas ao sol, assadas no forno e salgadas. Colocamos a ponta entre os incisivos e, com uma dentada, rachamos a semente, para recolher a amêndoa com a língua. A casca é discretamente cuspida na mão, quando prevalecem as boas maneiras.

Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Canal de Suez

No começo do século XIX, todos tinham o projeto em mente – ligar o Mar Vermelho ao Mediterrâneo.

Ao ocupar o Egito em 1798, Napoleão Bonaparte foi o primeiro a estudar a escavação de um canal. Como trabalhavam em condições difíceis, com material reduzido, seus engenheiros chegaram a uma conclusão equivocada: o Mar Vermelho, calcularam, é de 10 m mais alto que o Mediterrâneo; só um canal com represa o impediria de inundar o Egito. Mas o conquistador não teria tempo de levar a cabo o empreendimento.

Depois que Said paxá chegou ao poder, em 1854, Ferdinand de Lesseps embarcou para o Egito, onde 20 anos antes, tinha sido cônsul da França. O novo vice-rei considerava-o um amigo. Lesseps defendia a construção de um canal direto, sem represamento, porque naquele momento, já fora constatado que os dois mares (como todos os mares) estavam no mesmo nível.

A ideia seduziu Said, que o permitiria que começasse seu reinado com uma obra faraônica. Um curso de água de 160 km em pleno deserto. Assim dois homens decidiram sozinhos modificar o mapa do mundo.

Tecnicamente, disseram em Londres, o canal é inviável, por causa da dificuldade de navegação nas duas entradas cogitadas, pelo Mar Vermelho e pelo Mediterrâneo. Ainda que fosse construído, sua existência seria ameaçada pelos depósitos de areia, e quantias enormes teriam de ser destinadas a sua manutenção. Sem ser rentável, a obra não passaria de uma operação política contra a Inglaterra, para arrebatar-lhe o caminho das Índias e fazer do Egito uma colônia francesa.

Said paxá e Lesseps resolveram ignorar os obstáculos políticos, apesar do receio de Napoleão III, que temia a reação britânica. Criar um porto no Mediterrâneo, numa zona árida e varrida por ventos, requeria boa dose de audácia e determinação. A escavação do canal exigia mão-de-obra abundante. Recorreram a corvéia (praticada no Egito havia séculos – a mobilização forçada de milhares de camponeses, arrancados de suas terras para realizar trabalhos de interesse público). Adultos ou crianças, os operários do canal serão mais bem tratados que em outros canteiros de obras. Isso não impediria o início de uma acirrada polêmica que resultaria, em 1864, cinco anos após o início da obra, na supressão da corvéia. Tiveram então de trazer operários estrangeiros, recrutados em diversos países mediterrâneos, e utilizar máquinas especialmente concebidas para a circunstância.

A inauguração do canal, em 17 de novembro de 1869, na presença da imperatriz Eugênia e de mil convidados de vários países, foi um acontecimento mundial. A Grã-Bretanha seria a maior usuária dessa via, até se tornar a maior acionista da companhia ao comprar, em 1875, as ações do vice-rei do Egito. A mesma lógica, de controlar o caminho das Índias, levaria os ingleses a ocupar o Egito sete anos depois e lá permanecer por muito tempo. Os estatutos da companhia, proibiam a um acionista, por maior que fosse, ter maioria no conselho administrativo. Este ficaria sob controle francês. Após um começo difícil, o Canal conquistou um número crescente de clientes. Os pequenos acionistas ficaram satisfeitíssimos, além de aliviados. "Suez" símbolo do capitalismo triunfante, passou a ser um pilar do patrimônio familiar – possuir ações suas significava casar bem os filhos.

O canal era um empreendimento pacífico, destinado a estimular o desenvolvimento do comércio internacional. Durante as duas guerras mundiais, mostrou-se uma peça estratégica fundamental. E quando Nasser decidiu nacionalizar a companhia, em julho de 1956, para responder a afronta dos Estados Unidos, que n ão queriam mais financiar a barragem de Assuã, o Egito viu desembarcarem em seu território forças britânicas, francesas e israelenses.

Em duas outras ocasiões, durante os conflitos entre árabes e israelenses em 1967 e 1973, o istmo de Suez iria converter-se num campo de batalha e seu canal seria fechado à circulação. Uma profecia feita por Renan ao receber Lesseps na Academia Francesa:
Um só Bósforo bastou até hoje aos conflitos no mundo; o senhor criou um segundo, bem mais importante que o outro, já que, além de estabelecer a comunicação de duas partes de um mar interno, serve como acesso a todos os grandes mares do mundo... O senhor determinou o lugar das grandes batalhas do futuro.
Reaberto em junho de 1975, o canal voltou a ser uma via de navegação pacífica, na qual se avistam bandeiras de todos os países. Atravessado por um túnel e uma ponte, foi alargado e aprofundado 12 vezes no total, a fim de que pudesse comportar navios cada vez maiores, especialmente os superpetroleiros. Representa uma fonte de divisas essencial para o Egito. O futuro do canal dependerá de como evoluirão os meios de transporte e o consumo de energia ao longo do terceiro milênio.


Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Burro

Desde os tempos mais remotos, esse companheiro de olhos tristes presta serviços inestimáveis. Consegue arrastar-se sob o peso excessivo de uma carga. Ou então galopa sem esforço ao levar o menino que o monta sem sela. Na maioria das vezes, avança num passo tranquilo e regular, estóico operário à imagem da vida camponesa do Vale do Nilo.

Segundo uma estatística impossível de verificar, o Egito teria uma população de 6 milhões de burricos. Um para cada dez habitantes, o que seria provavelmente um recorde mundial. O burro do Delta é negro e robusto, já o do Alto Egito, branco ou grisalho, mais esguio, podendo atingir 1,20 m de altura.

Os coices muitas vezes se destinam ao enxame de moscas a atormentá-lo. E os zurros desesperados, aqueles inconfundíveis ih-ham, expressam menos tristeza ou revolta do que uma fome legítima após horas de trabalho ininterrupto. Um punhado de bersim (a alfafa local), e ele já está de volta a lida. Na época do cio, segundo dizem, os gemidos libidinosos podem estender-se por dez, até mesmo 15 km.

O burro selvagem já existia no Vale do Nilo desde o Paleolítico. Já o burro doméstico apareceu por volta de 3.600 aC. Raramente era montado. Servia para transportar os mais diversos produtos e realizar tarefas mais tarde transferidas para os camelos. Sua grande utilidade não impede que o considerem impuro, quando não mau, sobretudo se tiver o pelo ruivo. Por ser identificado com o deus Seth, o assassino de Osíris, não hesitam em sacrificá-lo para esconjurar o mal. Em certos hieróglifos da Baixa Época, esse animal infeliz só é representado com uma faca cravada no corpo.

Seu momento de glória é a viagem da Sagrada Família ao Egito. Diz a lenda que os descendentes do burro que teve o privilégio de levar Jesus possuem uma cruz no dorso.

Até a invenção da bicicleta e do automóvel, o burro constituía o principal meio de transporte dos egípcios. Não era só o "cavalo do pobre", como o apelidam no Ocidente: elegantes efêndis e volumosos figurões o montam de bom grado em selas decoradas.

Sempre presente nos contos e nos romances, o burro é o Rocinante de Goha, o Dom Quixote do florilégio egípcio. A vida real propicia-lhe às vezes a oportunidade de realizar feitos inesperados: em 1999, ao prender o casco numa fenda, um burrico acabou revelando a existência de uma necrópole greco-romana no oásis de Bahareya.

Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sicômoro

De madeira duríssima e casca esbranquiçada, o sicômoro do Egito não se confunde com o da Europa. Dá frutos minúsculos, parecidos com figos, que contrastam com seu tamanho gigantesco. É chamado de "figueira do faraó" ou guemmeiz.

A deusa Nut amava essa essa árvore de galhos musculosos. No túmulo de Tutmés III, um sicômoro a simboliza dando o seio ao faraó defunto. Nenhuma outra árvore foi tão desenhada e pintada pelos artistas da Antiguidade. É verdade que crescia em todo lugar, até à beira do deserto. O nome nouhi costumava designar as novas árvores plantadas no Vale do Nilo:
  • a figueira era chamada de "sicômoro dos figos";
  • o balsameiro de "sicômoro de incenso".

Durante a fuga do Egito, a Sagrada Família teria parado sob um sicômoro, em Matareya, na periferia do Cairo. Com mais de 7 m de circunferência, "a árvore da Virgem" atraiu durante séculos peregrinos do mundo inteiro, que vinham comprar dos monges fragmentos de sua casca, gravar no tronco seu nome e pendurar ex-votos nos galhos. Em geral, atribuem aos sicômoros todo tipo de poder. Tradicionalmente amarram a ele diversos objetos (panos, amuletos, mechas de cabelos, etc) ou nele cravam pregos, para solicitar a intervenção de santos ou agradecer-lhes a graça concedida.

No século XIX, a Alameda de Chubra, na saída do Cairo, era conhecida pelos gigantescos sicômoros, que formavam um dossel. As pessoas mais belas da capital marcavam encontro ali ao cair da tarde.


Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

domingo, 8 de agosto de 2010

Pão

Tudo começa e às vezes termina, com o pão. É a base da alimentação. Na língua do dia a dia, pão não se diz khobz, como em outros países árabes, mas aich, que significa "viver". Ao encontrar um pedaço de aich no chão, quem passa o apanha espontaneamente e, fazendo às vezes o gesto de beijá-lo, pede perdão a Deus.

No tempo dos faraós, já era um alimento fundamental: fabricados com farinha de cevada ou de trigo, os pães tinham forma redonda, oval ou cônica. Entre pães e bolos, havia mais de 40 tipos diferentes na época do Novo Império. O padeiro era uma figura essencial na vida cotidiana.

No fim do século XIX, as famílias egípcias mais abastadas possuíam seu próprio forno doméstico. As mulheres iam de casa em casa sovar a massa e assá-la. O pão do mercado (aich el-suq) era desprezado, só prestava para o povo.



Tipos de pão:
  • pão baladi – produzido por umas 10 mil padarias, de cor morena, 20 cm de diâmetro e duas camadas sem miolo. Pode ser bem cozido (meladden), semicozido (mefaa) ou tenro (tari).
– pão rústico à base de milho ou de trigo:
  • chami (sírio) – mais fino
  • frangui (europeu) – como o fino (baguete)
  • aich el-chamsi (pão-do-sol) – especialidade do Alto Egito, sem fermento, povilhado de farelo, tem a particularidade de crescer ao sol
  • bettao (ancestral etimológico da "pita") – produzido no Médio Egito, feito de farinha de milho e feno grego, semelhante a uma grande panqueca, conserva-se por meses, e basta molhar para amaciá-lo.

O preço irrisório de um pão impede que alguém morra de fome no Egito. A possibilidade de faltar pão é a preocupação dos mais pobres. É inconcebível uma refeição sem esse alimento. Podem recheá-lo de fava ou lentilhas, ou até mesmo de arroz ou de massas. O pão serve de prato e também de colher. O gesto de partir um pedaço, dobrá-lo entre os dedos e passá-lo no próprio prato ou num prato coletivo tem um nome: ghammess faz parte dos prazeres da gastronomia egípcia.

Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pássaros


Há 4 000 anos, no Antigo Império, pássaros pequenos e semi selvagens eram parte do cardápio dos egípcios. Eram caçados em bumerangues ou com redes, assim como patos, codornas e galinholas. Os baixo-relevos do Egito faraônico o comprovam: mostram pássaros multicoloridos, aninhados em acácias ou refugiados em moitas de papiro.

A fênix de plumagem acinzentada parecia surgir das águas ao amanhecer, ela era associada ao sol. Outros pássaros era identificados com o céu. Hórus assumia a forma de um falcão de asas abertas, planando sobre a Terra. A deusa Nekhbet encarnava-se no abutre, e o deus Thot, no íbis branco.

Os naturalistas que acompanharam Napoleão Bonaparte não encontraram todas as espécies existentes na Antiguidade, mas não lhes faltaram pássaros para estudar e desenhar, deixando fabulosas pranchas em cores com a águia de Tebas e a coruja.

Os antigos egípcios levavam os pássaros a sério, atribuindo a esses animais imprevisíveis um papel determinante na fundação das duas principais cidades do país.

Segundo Plutarco, em 331 aC, Alexandre mandou desenhar no chão – com farinha, por não dispor de giz – o plano da cidade que levaria seu nome. A futura capital do Egito teria a forma de um manto macedônio.

Alexandre achou bonito o desenho e ficou muito satisfeito, mas de repente uma multidão de pássaros de todas as espécies surgiu do lago e do rio, e eram tantos que obscureceram o céu como uma imensa nuvem carregada, antes de pousar ali e comer toda a farinha.

O macedônio ficou receoso. E os adivinhos logo o tranquilizaram, assegurando tratar-se de um sinal de prosperidade. Ele ordenou então o início das obras.

Seis séculos mais tarde, os árabes conquistaram o Egito. O general Amr acampava nos arredores da antiga Mênfis, enquanto esperava o momento de marchar sobre Alexandria. Chegada a hora de levantar acampamento, diz a lenda, o general viu que duas pombas tinham feito um ninho sobre sua tenda, e ordenou que a deixassem ali até sua volta. A tenda (fostat) tornou-se o ponto de partida para a construção de uma nova capital com esse nome.

Ao conquistarem o Egito em 969, os fatímidias, vindos do norte da África, decidiram fundar outra cidade, a noroeste de Fostat. Tábuas de madeira, ligadas por cordas às quais tinham prendido sinetas, foram dispostas para demarcar os limites. A ocasião propícia para iniciar as obras seria indicada pelos astrólogos, que observavam a evolução do planeta Marte. Mas enquanto os sábios discutiam, pássaros teriam encostado nas cordas fazendo soar as sinetas. Os operários logo se puseram a trabalhar, embora Marte, apelidado em árabe de El-Qahira (o guerreiro, o conquistador), estivesse no seu zênite. Decidiram então que a nova capital não mais se chamaria El-Mansureya, como previsto, mas El-Qahira, que os europeus traduziram como Cairo.

O céu do Egito ainda é cortado por íbis de plumagem castanho-avermelhada com reflexos dourados, gaviões negros, andorinhas de peito vermelho e rouxinóis. Sem falar na pequena garça-real branca. O corvo marrom é frequentador assíduo dos sítios arqueológicos. O pelicano branco aparece no outono e na primavera, bem ao sul, nas proximidades de Abu Simbel.


Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé; as fotos: Birdmania

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Papiro

Depois de ter desempenhado função essencial no período faraônico, o papiro desapareceu do Egito por quase 10 séculos, e foi reintroduzido na década de 1960. Voltamos então a ver essa planta aquática, de caule liso e triangular, encimada por uma umbela semelhante a um tufo de cabelo.

Na Antiguidade, o papiro era emblema do Baixo Egito. Presente sobretudo no Delta, em buquês que chegavam a atingir 6m de altura, ajudava os defuntos a atravessar as áreas pantanosas tendo em vista o renascimento:

  • os protegia contra os gênios malfazejos e
  • os animais perigosos,
conseguindo obter os favores da deusa Uadjyt com o farfalhar de suas folhas.

Os caules de papiro – serviam para a fabricação de cordas, esteiras, sandálias, cestos e barcos leves, e os resíduos davam um excelente combustível. A parte tenra dos caules era comida.

O papiro constituía um dos suportes básicos da escrita, muito antes de inventarem o pergaminho e o papel. Sua casca era retirada e depois era cortado em lâminas. Após uma imersão num banho específico, eram superpostas e entrelaçadas, em seguida prensadas para formar uma trama. Nos papiros inscreviam-se minutas de processos, contas, hinos e textos litúrgicos. Graças ao clima seco do Egito, rolos ficaram conservados até hoje. O mais longo, com 41 m, está no British Museum, em Londres.

Mas o papiro foi destronado pelos primeiros papéis inventados na China. Em seus outros usos, foi substituído pela palha, pelo cânhamo ou pelo couro. Como não tinha mais função religiosa, acabou desaparecendo da paisagem egípcia.

Por iniciativa de Hassan Ragab, ex-embaixador do Egito na China, mudas de papiro foram colhidas no Sudão a partir de 1962 para serem plantadas perto do Cairo. O diplomata, engenheiro de formação – e fundador do partido ecológico em seu país – dedicou vários anos à pesquisa do processo de fabricação dos rolos pelos antigos egípcios. "Institutos" destinados aos turistas faziam demonstrações desse processo. Voltou-se a escrever e a pintar sobre papiro, às vezes com resultados surpreendentemente belos.



Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Bandeira do Egito

O emblema nacional do Egito não parou de se modificar ao longo dos séculos, ao sabor das sucessivas ocupações, dos regimes ou das circunstâncias políticas. Acompanhar essa dança das cores é mais um meio de folhear a história. Diante da impossibilidade de recuar por milênios, comecemos pelo fim do período copta, quando o país se separa do império bizantino. Foram 12 mudanças desde o início da era islâmica.

Em 640, com a tomada árabe o Egito adotou a bandeira branca dos omíadas, depois a negra dos abássidas e dos tulunidas, antes de associar-se à bandeira verde de seus novos senhores, os fatímidas. Uma volta ao negro na época dos aiúbidas. A partir de 1250, com os mamelucos no poder, o amarelo se impôs. Cada príncipe tinha suas cores.

Conquistado pelos otomanos em 1517, o Egito adotou a bandeira desse império: uma lua branca em fase de quarto crescente com uma estrela branca dentro, sobre fundo vermelho. Três séculos mais tarde, durante o reinado de Mohammed Ali, um Egito ainda otomano, desejoso de sua independência, substituiu a estrela de seis pontas por uma de cinco. O quediva* Ismail levou mais longe a diferenciação, adotando três crescentes e três estrelas sobre fundo vermelho.

O Egito proclamado reino independente em 1922, escolheu uma bandeira verde, com um crescente branco e três estrelas. Depois da revolução de 1952, a essa bandeira acrescentaram uma segunda, chamada "da libertação", que nada tinha em comum com as precedentes:

era composta de três faixas horizontais – vermelha, branca e negra
  1. vermelho – a luta contra o ocupante britânico
  2. branco – a revolução de 1952, que não derramou sangue
  3. negro – o fim da opressão

A nova República árabe unida fez dela seu emblema, em 1958, quando o Egito se uniu à Síria. E sobre a faixa branca passaram a figurar duas estrelas verdes. Duas para começar, pois subentendia-se que outras seriam acrescentadas com a adesão de países irmãos ao movimento. Sem nenhuma lua, a bandeira tornou-se mais laica e menos poética. O Egito e a Síria separaram-se em 1961, e mais uma vez surgiu a questão do símbolo nacional. A república árabe desunida conservou o emblema escolhido em 1958 como se nada tivesse mudado.

Em 1972, com Anwar al-Sadat como presidente, a bandeira mudou, substituindo as duas estrelas por um falcão dourado bordado na bandeira, e as três faixas foram mantidas com o mesmo significado. Hosni Mubarak também imprimiu sua marca no símbolo nacional em 1984, o falcão foi trocado por uma águia de Saladino.



As bandeiras:



Bandeira do Egito de 1972 - 1984






Bandeira da República Árabe Unida de 1958 - 1961






Bandeira da Revolução Egípcia de 1952







Bandeira do Reino do Egito de 1922 - 1952





Bandeira no período de 1831? - 1914





Bandeira do tempo do domínio do Império Otomano, no século XIX




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* quediva: termo persa com o significado de senhor
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Veja também: Bandeira do Egito


Origem: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Egito, uma terra de contrastes



As pirâmides, os templos e os tesouros do Museu do Cairo são alguns dos atrativos oferecidos aos turistas que visitam o Egito. No entanto, a riqueza artística do país não é sua única atração. A mistura de comunidades religiosas e a variedade da paisagem fazem do Egito uma terra de contrastes.






Hoje, como antigamente, Hapi, a personificação divina do Nilo, está presente na paisagem egípcia. Embora o país se estenda ao longo de um vasto território – mais de um milhão de quilômetros quadrados – só 4% de sua superfície total são habitáveis, pois o resto é invadido pelo deserto. A vegetação que cresce nas margens do rio desaparece à medida que se avança pelo interior, o que não impede que o país abrigue uma população estável há mais de 5000 anos.


O Egito faraônico – a civilização egípcia formou-se nas margens do Nilo, primeiro com uma série de povoados de comunidades nômades e, mais tarde, com autênticas povoações. Enquanto a Europa ainda estava na Idade da Pedra, o Egito já começava a ser um Estado unificado. São desse período - o Antigo Império - as famosas pirâmides de Gizé, ponto de referência de todos os visitantes do país desde épocas remotas. A grande pirâmide de Khufu, uma das Sete Maravilhas do Mundo, a única que ainda existe. Foi durante o Novo Império, que se ergueu a maior parte dos edifícios monumentais atualmente vistos. Muitos deles construídos em pedra, o que facilitou a sua conservação, mas deve-se ter em conta que os templos que ainda permanecem de pé são apenas uma pequena amostra dos inúmeros edifícios construídos.

O Nilo também suscitou o interesse dos antigos viajantes que passavam por Kemet, nome dado pelos egípcios a seu país. Kemet significa: 'terra negra', a terra fértil que o rio depositava depois da cheia anual. Do outro lado, existia a 'terra vermelha', o deserto que rodeia o Egito. Além de fonte de vida, o Nilo facilitava a comunicação do país, função que em menor escala, ainda cumpre atualmente.

O aparecimento de novas religiões e a escassez de materiais para a construção foram algumas das causas da destruição dos antigos monumentos. Com a influência da comunidade cristã, muitos templos egípcios foram modificados, convertendo-se em basílicas cristãs. Posteriormente, o Egito caiu nas mãos do Islã e a sua arte.














O Egito islâmico – durante mais de 1000 anos, o Islã dominou o Egito. Diferentes dinastias governaram o país e converteram-no em um dos principais centros de comércio mundial da Idade Média. Durante o século XII, com Saladino, o Egito e especialmente a recém fundada cidade do Cairo, viveram uma época de grande esplendor. São desse período a cidadela cariota, algumas das mais importantes mesquitas e as madrasas, ou escolas religiosas. Com os mamelucos (milícia turco egípcia), o Egito continuou a desfrutar de uma situação privilegiada, até que no século XVI passou a ser uma província do Império Otomano. Os monumentos antigos, em sua maior parte bem conservados até então, embora particularmente cobertos pela areia do deserto, sofreram alguns atentados, como os disparos que destruíram o nariz da Esfinge. Só no final do século XVIII é que apareceram em cena as potências européias para lutar contra os otomanos. Primeiro a França com Napoleão, e depois a Grã Bretanha, que converteu o Egito em uma de suas áreas de influência até 1952.


O Egito moderno – um país em processo de modernização. Na capital e nas principais cidades, a economia é diversificada. Pessoas vestem-se com chilaba ou com roupa ocidental, as grandes urbes contrastam com os povoados e aldeias do interior, com suas casas de adobe, permitem que imaginemos como era o Egito antigo. Os habitantes dessas pequenas povoações vivem da agricultura, criação de gado, praticados com técnicas rudimentares. O fascínio que os restos dos antigos monumentos ainda hoje exercem faz do turismo a principal fonte de receita do país.

  • a superfície do país é de 1 001 449 km2,
  • população de 55 000 000 habitantes,
  • a capital é Cairo com 13 000 000 habitantes,
  • a língua é o árabe,
  • 90% da população é da religião islâmica e
  • a forma de governo é República presidencialista.

Fonte: Egitomania fascículos 2001

sábado, 25 de abril de 2009

O Museu Egípcio do Cairo

A maior coleção de peças do Egito faraônico encontra-se exposta no Museu Egípcio do Cairo. Visitar as suas salas provoca uma sensação de nostalgia não só dos tempos faraônicos, mas também da época em que viajantes românticos começavam a ver o resultado das primeiras escavações.


A praça de el Tahrir, centro nevrálgico da vida do Cairo atual, é limitada ao norte por um palácio do final do século XIX que, desde 1902, aloja o Museu Egípcio. Esta instituição é o auge dos esforços de Auguste Mariette (1821-1881) para criar um museu que complementasse a função desempenhada pelo Serviço de Antiguidades, fundado sob os auspícios de Said Baja, vice-rei do Egito. Esta tentativa de preservar as antiguidades iniciara-se em 1858, quando se criou um museu no bairro de Bulak. Em 1891, foi transferido dali para Gisé, até que, no princípio do século XX, ficou definitivamente instalado na praça de el-Tahrir. Até a Revolução Egípcia de 1952, a direção do museu esteve a cargo de europeus, destacando-se a gestão de Gaston Gaspero. As peças do museu não se limitam às 6000 expostas, pois grande quantidade encontra-se alojada em salas para estudo. A ação centralizadora da direção do museu, atualmente a cargo de especialistas egípcios, teve como resultado um contínuo aumento do acervo.

A exposição de peças no Museu Egípcio está classificada por seções e segue, como uma espinha dorsal, uma ordem cronológica. No piso inferior, exibem-se os objetos mais significativos do início da época faraônica até o final da época romana. O primeiro piso tem, como seções principais, a sala dedicada ao Tesouro de Tutancâmon e a coleção de múmias de faraós. Ao lado dessa seção, no mesmo piso, são expostos sarcófagos de reis e sacerdotes, diversos objetos de uso doméstico e uma coleção de elementos relativos a ciências naturais.

Museu Egípcio do Cairo

O Edifício onde foi instalado o Museu foi projetado pelo arquiteto francês Marcel Dourgnon e inaugurado em 1902. O jardim que rodeia a construção tem muitas estátuas e fragmentos arquitetônicos de diferentes regiões do Egito. Em homenagem ao seu precursor, o túmulo de Mariette está no jardim e sobre ele ergue-se a sua estátua em bronze.

fonte: Egitomania-fascículos 2001

segunda-feira, 30 de março de 2009

Biblioteca de Alexandria

– Reunir o saber do mundo num mesmo lugar era a fantástica ambição dos fundadores da Biblioteca de Alexandria –



Toda a literatura grega, entre outras, figurava nessa biblioteca, a maior da Antiguidade. Seus dirigentes não eram muito parcimoniosos quanto aos meios de aquisição. Ao atracar em Alexandria, os navios tinham de declarar as obras que se achavam a bordo. Estas eram entregues aos copistas antes de serem restituídas aos proprietários. Às vezes, ficavam com os originais e devolviam as cópias. Tratava-se do "fundo dos navios".



Inseparável do Museu – instituição gêmea que a completava – a biblioteca constituía também um centro de pesquisa renomado e, sobretudo, uma comunidade científica. Sábios alexandrinos, como Euclides, conviviam no cotidiano com colegas vindos de todo o litoral mediterrâneo, ou de mais longe. Entre os escritores, desenvolvia-se um cosmopolitismo intelectual inigualável.

Bibliotecários como Eratóstenes, Aristófanes e Calímaco ligaram seus nomes a esse sonho de universidade. Não eram simples arquivistas, preocupados em verificar e classificar inúmeros rolos, mas filólogos, filósofos, poetas, geógrafos, astrônomos ou matemáticos. Quando Calímaco, nascido em Cirene, chega a Alexandria para trabalhar como uma espécie de professor primário, já é conhecido por uma obra monumental, as Causas, um poema de sete mil versos sobre a origem das coisas. Eratóstenes, também natural de Cirenaica, é um dos maiores geógrafos de seu tempo: para calcular a circunferência da Terra, estabeleceria a diferença de inclinação dos raios do sol entre duas cidades do Egito, Alexandria e Siena (Assuã) situadas no mesmo meridiano.

Dessa espantosa biblioteca não ficou nenhum vestígio. Sequer sabemos onde se localizava exatamente. Sua data de nascimento é controvertida:
  • surgiu sem dúvidas nos anos 300 a.C, sob o reinado de Ptolomeu I Sóter
  • é possível que tenha desaperecido em 48 d.C, num gigantesco incêndio, durante a tomada da cidade por César
  • só teria restado seu anexo, chamado Biblioteca Filha, que desapareceria em 391 d.C, quando foi destruído o Serapeum de Alexandria (biblioteca sucursal em Serapis)
Na Europa, durante muito tempo acreditaram que os árabes eram responsáveis por essa destruição, quando conquistaram o Egito no século VII: Amr Ibn al-As teria dado a ordem de transformar as obras em combustíveis para os banhos públicos da cidade, e teriam sido necessários seis meses para queimar tudo. (Uma lenda entre outras)

Biblioteca Alexandrina
A idéia, sedutora e perigosa, de refazer uma Biblioteca de Alexandria nasceu na década de 1970. O patrocínio da UNESCO e diversos apoios internacionais permitiram realizá-la. Concebido por arquitetos noruegueses , o prédio de Alexandrina tem 11 andares, quatro deles abaixo do nível do mar. Não lhe faltam símbolos. Sua sala de leitura é única. Além de construída em sete níveis, que correspondem ao sete domínios do saber, é a maior do mundo. O teto de vidro, em forma de disco solar, parece emergir da água; é inclinado em direção ao mar, diante do cabo de Silsila, no lugar em que a famosa biblioteca da Antiguidade poderia ter-se localizado. No muro revestido de granito que a cerca, estão gravados caracteres dos sistemas de escrita de várias civilizações. Uma sala para congressos e um planetário completam o conjunto. Inaugurada em 2003.
(do livro 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé – fotos Wikipédia)

domingo, 29 de março de 2009

Museus

O Egito não está só no Egito. Existe um país extramuros, disperso pelos quatro cantos do mundo: centenas de milhares de objetos e estátuas, às vezes monumentos inteiros, atravessaram os mares. Alguns pertecem a coleções particulares; a maioria, porém, encontra-se nos museus. (foto ao lado do British Museum em Londres)


  • o Louvre possui 55 mil peças egípcias
  • os museus de Londres, Turim e Berlim, não foram menos aquinhoados
  • muitas cidades européias e americanas exibem coleções mais modestas
  • sem falar em países como Austrália e Japão

Não faltam motivos de indignação. Basta lembrar epsódios como o ocorrido em 1843: temendo que os alemães tomassem a iniciativa, o francês Émile Prisse d'Avennes mandou serrar os relevos da Sala dos Ancestrais do templo de Karnak, a fim de despachá-los discretamente para o Louvre em 27 caixas com a identificação "objetos de história natural". Mas também se pode riscar o passado e ver as coisas de maneira mais positiva. Afinal, todos esses saques permitiram salvar inúmeros tesouros ameaçados. Ainda hoje, conservados em vitrines a uma temperatura adequada, escapam à degradação, embora retirados de seu contexto original.

A dispersão dos vestígios faraônicos pelo mundo seria inaceitável se faltassem peças ao Egito; mas, ao contrário, parecem sobrar. Verdadeira miscelânea onde estão expostas 140 mil peças numa centena de salas, o Museu do Cairo não sabe mais onde guardar a parte do acervo que não está em exposição. Um pouco atordoado, o visitante não pára de descobrir tesouros escondidos na penumbra.

Há muito tempo o tráfico de antiguidades é proibido e combatido. A lei determina que uma missão arqueológica estrangeira pode levar um décimo dos objetos descobertos, desde que o Egito tenha peças equivalentes. Os grandes museus estrangeiros tem de se contentar em adquirir coleções particulares.

Cada museu tem seu charme e suas vantagens:
  • as portas abertas do British Museum, onde se entra gratuitamente, as salas egípcias próximas à entrada
  • o novo Louvre cor de areia, cujo percurso temático ilustra de forma luminosa a vida cotidiana no tempo dos faraós
  • a cor cinza do Museu de Turim, onde as coleções são classificadas por tipos de objetos como se fazia no século XIX

Museu do Louvre em Paris

(texto do livro 'Egito um olhar amoroso' e fotos Wikipédia)

terça-feira, 24 de março de 2009

Bandeira do Egito

A bandeira do Egito foi adotada em 4 de outubro de 1984. É composta por 3 faixas horizontais de mesmo tamanho. As faixas são vermelha, branca e preta. A origem dos elementos desta bandeira está no Império Turco-Otomano.

  • Significado das cores
Vermelha – simboliza a história do país.
Branca – representa a Revolução de 1952 que permitiu a deposição do rei Faruk I, e que acabou com a definitiva proclamação da República.
Preta – simboliza o final da opressão do colonialismo britânico sobre o povo egípcio. E também a morte dos Faraós Tutankamon e Menés.
O escudo é um símbolo da paz no Egito desde a Guerra dos 6 Dias, e também um dos símbolos egípcios mais importantes.





Atual Bandeira do Egito (1984)







Bandeira do Egito de 1972 - 1984






Bandeira da República Árabe Unida de 1958 - 1961






Bandeira da Revolução Egípcia de 1952







Bandeira do Reino do Egito de 1922 - 1952





Bandeira no período de 1831? - 1914





Bandeira do tempo do domínio do Império Otomano, no século XIX




Veja também: A Bandeira do Egito


(Wikipédia)

domingo, 22 de março de 2009

Um pouco do Egito

O Egipto (português europeu) ou Egito (português brasileiro) (AO 1990: Egito) (em egípcio Kemet; em copta Ⲭⲏⲙⲓ, transl. Kīmi; em árabe مصر, transl. ‎Miṣr, pronunciado Máṣr pelos egípcios; nome oficial: República Árabe do Egito) é um país do norte da África que inclui também a península do Sinai, na Ásia, o que o torna um Estado transcontinental.
Com uma área de cerca de 1 001 450 km², o Egito limita a oeste com a Líbia, ao sul com o Sudão e a leste com a Faixa de Gaza e Israel. O litoral norte é banhado pelo mar Mediterrâneo e o litoral oriental pelo mar Vermelho. A península do Sinai é banhada pelos golfos de Suez e de Acaba. A sua capital é a cidade do Cairo.
O Egito é um dos países mais populosos de África. A grande maioria da população estimada em 80 milhões de habitantes (2007), vive nas margens do rio Nilo, a única área cultivável do país, com cerca de 40 000 kmª. As regiões mais amplas do deserto do Saara são pouco habitadas. Cerca de metade da população egípcia vive nos centros urbanos, em especial no Cairo, em Alexandria e nas outras grandes cidades do Delta do Nilo, de maior densidade demográfica.
O país é conhecido pela sua antiga civilização e por alguns dos monumentos mais famosos do mundo, como as Pirâmides de Gizé e a Grande Esfinge. Ao sul, a cidade de Luxor abriga diversos sítios antigos, como o Templo de Karnak e o Vale dos Reis. O Egipto é reconhecido como um país política e culturalmente importante do Médio Oriente e do Norte de África.
Os gentílicos para o país são "egípcio", "egipciano" e "egipcíaco", sendo que o primeiro é quase exclusivamente usado. (fonte: Wikipédia)

Egito

Duas grandes forças: o rio Nilo e o deserto do Saara, configuraram uma das civilizações mais duradoras do mundo. Todos os anos o rio inundava suas margens e depositava uma camada de terra fértil em sua planície aluvial. Os egípcios chamavam a região de Kemet, "terra negra". Esse ciclo fazia prosperar as plantações, abarrotava os celeiros reais e sustentava uma teocracia – encabeçada por um rei de ascendência divina, ou faraó – cujos conceitos básicos se mantiveram inalterados por mais de 3 mil anos. O deserto, por sua vez, atuava como barreira natural, protegendo o Egito das invasões de exércitos e idéias que alteraram  profundamente outras sociedades antigas. O clima seco preservou artefatos como o Grande Papiro Harris, revelando detalhes de uma cultura que ainda hoje suscita admiração.

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