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domingo, 15 de agosto de 2010

Deserto

Visto do alto, o Egito aparece em toda a sua simplicidade, uma estreita fita verde, que vai do sul ao norte, entre duas imensas extensões de areia. Um país concentrado em torno de seu rio e protegido do exterior por vastos desertos. Esta disposição singular explica uma tentação permanente – a da auto suficiência. O deserto era menos árido há 3 000 anos, até o Novo Império, lá caçavam-se leões.

O Vale do Nilo não estava menos cercado, encerrado, estrangulado por um mundo hostil. Era a terra "vermelha", encarnada pelo temível Seth, contra a terra "negra" de Osíris, sua vítima. No deserto imaginavam animais assustadores e fantásticos. Outros bem reais, confundiam-se com deuses:
  1. Anúbis com cabeça de cão,
  2. Hórus falcão,
  3. Sekhmet a leoa

O deserto não é algo isolado, deixa sua marca em todo o vale.

Mesmo fora do oásis, o deserto egípcio é povoado de animais (cobras, lagartos, chacais, águias, gaviões, falcões, etc). Nele se encontram mosteiros, fortalezas romanas, ruínas de templos ptolomaicos, necrópoles antigas. Se no passado eram extraídos ouro e pórfiro, hoje há exploração de ferro, petróleo, gás, manganês e fosfatos.

O objetivo é conquistar o deserto e ampliar a superfície cultivável e habitável. Frutas e legumes já crescem ali graças a perfurações profundas e a uma irrigação gota a gota. A famosa estrada do deserto, criada pela companhia de petróleo Shell na década de 1930 para ligar Alexandria ao Cairo, mudou de natureza. Virou uma verdadeira auto-estrada, ladeada de arbustos, cujas ramificações levam a outras cidades.




Ver solidões passarem umas após as outras, prestar atenção ao silêncio e nada ouvir, nem um canto de pássaro, nem um zunido de moscas, porque não há nada vivo em lugar nenhum. (Le Désert, 1895 - Pierre Loti)




Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Canal de Suez

No começo do século XIX, todos tinham o projeto em mente – ligar o Mar Vermelho ao Mediterrâneo.

Ao ocupar o Egito em 1798, Napoleão Bonaparte foi o primeiro a estudar a escavação de um canal. Como trabalhavam em condições difíceis, com material reduzido, seus engenheiros chegaram a uma conclusão equivocada: o Mar Vermelho, calcularam, é de 10 m mais alto que o Mediterrâneo; só um canal com represa o impediria de inundar o Egito. Mas o conquistador não teria tempo de levar a cabo o empreendimento.

Depois que Said paxá chegou ao poder, em 1854, Ferdinand de Lesseps embarcou para o Egito, onde 20 anos antes, tinha sido cônsul da França. O novo vice-rei considerava-o um amigo. Lesseps defendia a construção de um canal direto, sem represamento, porque naquele momento, já fora constatado que os dois mares (como todos os mares) estavam no mesmo nível.

A ideia seduziu Said, que o permitiria que começasse seu reinado com uma obra faraônica. Um curso de água de 160 km em pleno deserto. Assim dois homens decidiram sozinhos modificar o mapa do mundo.

Tecnicamente, disseram em Londres, o canal é inviável, por causa da dificuldade de navegação nas duas entradas cogitadas, pelo Mar Vermelho e pelo Mediterrâneo. Ainda que fosse construído, sua existência seria ameaçada pelos depósitos de areia, e quantias enormes teriam de ser destinadas a sua manutenção. Sem ser rentável, a obra não passaria de uma operação política contra a Inglaterra, para arrebatar-lhe o caminho das Índias e fazer do Egito uma colônia francesa.

Said paxá e Lesseps resolveram ignorar os obstáculos políticos, apesar do receio de Napoleão III, que temia a reação britânica. Criar um porto no Mediterrâneo, numa zona árida e varrida por ventos, requeria boa dose de audácia e determinação. A escavação do canal exigia mão-de-obra abundante. Recorreram a corvéia (praticada no Egito havia séculos – a mobilização forçada de milhares de camponeses, arrancados de suas terras para realizar trabalhos de interesse público). Adultos ou crianças, os operários do canal serão mais bem tratados que em outros canteiros de obras. Isso não impediria o início de uma acirrada polêmica que resultaria, em 1864, cinco anos após o início da obra, na supressão da corvéia. Tiveram então de trazer operários estrangeiros, recrutados em diversos países mediterrâneos, e utilizar máquinas especialmente concebidas para a circunstância.

A inauguração do canal, em 17 de novembro de 1869, na presença da imperatriz Eugênia e de mil convidados de vários países, foi um acontecimento mundial. A Grã-Bretanha seria a maior usuária dessa via, até se tornar a maior acionista da companhia ao comprar, em 1875, as ações do vice-rei do Egito. A mesma lógica, de controlar o caminho das Índias, levaria os ingleses a ocupar o Egito sete anos depois e lá permanecer por muito tempo. Os estatutos da companhia, proibiam a um acionista, por maior que fosse, ter maioria no conselho administrativo. Este ficaria sob controle francês. Após um começo difícil, o Canal conquistou um número crescente de clientes. Os pequenos acionistas ficaram satisfeitíssimos, além de aliviados. "Suez" símbolo do capitalismo triunfante, passou a ser um pilar do patrimônio familiar – possuir ações suas significava casar bem os filhos.

O canal era um empreendimento pacífico, destinado a estimular o desenvolvimento do comércio internacional. Durante as duas guerras mundiais, mostrou-se uma peça estratégica fundamental. E quando Nasser decidiu nacionalizar a companhia, em julho de 1956, para responder a afronta dos Estados Unidos, que n ão queriam mais financiar a barragem de Assuã, o Egito viu desembarcarem em seu território forças britânicas, francesas e israelenses.

Em duas outras ocasiões, durante os conflitos entre árabes e israelenses em 1967 e 1973, o istmo de Suez iria converter-se num campo de batalha e seu canal seria fechado à circulação. Uma profecia feita por Renan ao receber Lesseps na Academia Francesa:
Um só Bósforo bastou até hoje aos conflitos no mundo; o senhor criou um segundo, bem mais importante que o outro, já que, além de estabelecer a comunicação de duas partes de um mar interno, serve como acesso a todos os grandes mares do mundo... O senhor determinou o lugar das grandes batalhas do futuro.
Reaberto em junho de 1975, o canal voltou a ser uma via de navegação pacífica, na qual se avistam bandeiras de todos os países. Atravessado por um túnel e uma ponte, foi alargado e aprofundado 12 vezes no total, a fim de que pudesse comportar navios cada vez maiores, especialmente os superpetroleiros. Representa uma fonte de divisas essencial para o Egito. O futuro do canal dependerá de como evoluirão os meios de transporte e o consumo de energia ao longo do terceiro milênio.


Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sicômoro

De madeira duríssima e casca esbranquiçada, o sicômoro do Egito não se confunde com o da Europa. Dá frutos minúsculos, parecidos com figos, que contrastam com seu tamanho gigantesco. É chamado de "figueira do faraó" ou guemmeiz.

A deusa Nut amava essa essa árvore de galhos musculosos. No túmulo de Tutmés III, um sicômoro a simboliza dando o seio ao faraó defunto. Nenhuma outra árvore foi tão desenhada e pintada pelos artistas da Antiguidade. É verdade que crescia em todo lugar, até à beira do deserto. O nome nouhi costumava designar as novas árvores plantadas no Vale do Nilo:
  • a figueira era chamada de "sicômoro dos figos";
  • o balsameiro de "sicômoro de incenso".

Durante a fuga do Egito, a Sagrada Família teria parado sob um sicômoro, em Matareya, na periferia do Cairo. Com mais de 7 m de circunferência, "a árvore da Virgem" atraiu durante séculos peregrinos do mundo inteiro, que vinham comprar dos monges fragmentos de sua casca, gravar no tronco seu nome e pendurar ex-votos nos galhos. Em geral, atribuem aos sicômoros todo tipo de poder. Tradicionalmente amarram a ele diversos objetos (panos, amuletos, mechas de cabelos, etc) ou nele cravam pregos, para solicitar a intervenção de santos ou agradecer-lhes a graça concedida.

No século XIX, a Alameda de Chubra, na saída do Cairo, era conhecida pelos gigantescos sicômoros, que formavam um dossel. As pessoas mais belas da capital marcavam encontro ali ao cair da tarde.


Fonte: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Delta do Nilo


O Delta do Nilo é a região onde o rio Nilo se divide em vários braços para desaguar no mar Mediterrâneo, no norte do Egito. É uma planície com forma triangular (de onde provém o termo "delta"), com 160 km de comprimento e 250 km de largura.

– No Delta, o Nilo bifurca-se em dois canais principais:


  1. a oeste, o canal de Roseta, e
  2. a leste, o de Damieta.

Na Antiguidade era onde se localizava o chamado Baixo Egito, que consequentemente foi a região que mais sofreu a influência do período helênico.


História
O mais antigo período histórico desta região está profundamente enterrado sob sedimentos e é pouco conhecido, mas ninguém duvida da antiguidade de suas cidades ou de sua importância econômica desde os primeiros tempos.

O Delta oriental era um ponto sensível onde o Antigo Egito se comunicava com a Ásia. No final do Império Médio, essa região foi invadida pelos hicsos, povos asiáticos, e mais tarde se tornou a base do Egito para suas campanhas bélicas na Ásia.

Na XIX dinastia, a capital do Egito foi transferida pelo faraó Ramsés II para o Baixo Egito, na cidade de Pi-Ramsés (ou Per-Ramsés). Assim o Delta encabeçou a liderança do Egito. Mais tarde, no Período Ptolomaico e Romano, a sua proximidade com os centros políticos e econômicos do mundo antigo favoreceu o seu desenvolvimento.


Cidades antigas e modernas na região do Delta:

Alexandria
Almançora
Aváris
Bilbeis
Bubastis
Canopus
Damanhur
Damietta
Kafr el-Sheikh
Leontópolis
Mendes
Mit Abu al-Kum
Naucratis
Pelusium
Port Said
Rosetta
Sais
Tanis
Tanta
Zagazig













Notícia
O Egito comemora este ano, o 50º aniversário do início da construção do Aswan High Dam – é uma das maiores represas do mundo, no Nilo, no sul do Egito, construída para controlar a água, armazená-la para tempos de seca e está equipada para fornecer energia hidroelétrica. Mas acontece a erosão costeira e o processo de rebaixamento da superfície terrestre, por causas tectônicas e a compactação do solo do delta. A barragem bloqueia os sedimentos mais ao alto do Cairo e como resultado, o delta está afundando. O mar Mediterrâneo também está aumentado devido ao aquecimento global. Egito e as Nações Unidas vão fazer um estudo, sobre qual a prevenção para proteger o delta da invasão do mar.

O governo está com uma série de megaprojetos para aumentar a área habitável do país. O mais ambicioso é uma bomba gigante que desvia dez por cento das águas do Nilo para uma região desabitada, no deserto, para criar um novo Delta.
(cienciahoje.pt )


Fonte: Wikipédia

domingo, 30 de maio de 2010

Rio Nilo

O rio Nilo é um grande rio do nordeste do continente africano que nasce a sul da linha do Equador e desagua no Mar Mediterrâneo. A sua bacia hidrográfica ocupa uma área de 3 349 000 km² abrangendo:
  1. Uganda,
  2. Tanzânia,
  3. Ruanda,
  4. Quênia,
  5. República Democrática do Congo,
  6. Burundi,
  7. Sudão,
  8. Etiópia e
  9. Egito.
A partir da sua fonte mais remota, no Burundi, o Nilo apresenta um comprimento de 6 852 15 km.

É formado pela confluência de três outros rios, o Nilo Branco (Bahr-el-Abiad), o Nilo Azul (Bahr-el-Azrak) e o rio Atbara. O Nilo Azul (Bahr-el-Azrak) nasce no Lago Tana (Etiópia), confluindo com o Nilo Branco em Cartum, capital do Sudão. Muitos geógrafos deixaram de o considerar como o maior rio do mundo, perdendo o posto para o rio Amazonas, com cerca de 6.992,06 km de extensão.


Etmologia
Para alguns autores a palavra Nilo pode estar relacionada com a raiz semítica "nahal", que significa vale. Em língua árabe e hebraico, duas línguas semíticas, rio diz-se nahrun e nehar respectivamente. Contudo, duas outras línguas semíticas, o amárico e a língua ge'ez usam palavras pouco semelhantes a "nahal" para se referirem a um rio (felege e wonz). Independente das incertezas, a palavra Nilo deriva do latim Nilus que por sua vez deriva do grego Neilos. Os antigos Egípcios chamavam ao Nilo Aur ou Ar o que significa "negro", numa alusão à terra negra trazida pelo rio por altura das cheias. Tradicionalmente considera-se que o rio Nilo nasce no Lago Vitória.


Bacia
Considera-se que o rio Nilo nasce no Lago Vitória. Contudo, o próprio Lago Vitória tem como principal tributário o rio Kagera, que é por causa disso considerado como fonte mais remota do Nilo. O rio Kagera nasce no Burundi, a norte do Lago Tanganica, na confluência do rio Niavarongo e Ruvuvu.

– O Nilo Vitória
O Nilo propriamente dito começa em Jinja (Uganda), na borda norte do Lago Vitória, correndo para norte através das quedas Ripon (que deixaram de existir desde a construção da barragem de Owen Falls em 1954), passando pelo Lago Kioga e pelo Lago Alberto. O ramo entre estes dois rios é conhecido como o Nilo Vitória.

– O Nilo Alberto
A partir do Lago Alberto e até Númula, no Sudão, o Nilo recebe a designação do Nilo Alberto.

– O Al-Jabal
Em Númula e até se encontrar com o rio Sobat (um pouco acima de Malakal) o Nilo é conhecido como o Bahr al-Jabal, o Rio Montanhoso. Torna-se então mais sinuoso, recebendo junto ao Lago No o rio Al-Ghazal (Gazela) como afluente. Antes disso, o Nilo passou por entre um pântano, o Sudd.

– O Nilo Branco e o Nilo Azul
Entre Malakal e Cartum, o Nilo é conhecido como o Nilo Branco. Em Cartum o Nilo Branco recebe as águas do Nilo Azul, oriundo dos altos planaltos da Etiópia. A 322 quilometros a norte de Cartum, o Nilo recebe o seu último grande afluente, o rio Atbara, oriundo igualmente do planalto abissínio. O rio avança então pelos penhascos da região da Núbia até chegar a Assuão no Egito. A partir de Assuão o vale alarga até se atingir o Delta, que se inicia um pouco a norte da cidade do Cairo.

– Delta do Nilo
O Delta do Nilo é uma região plana com uma forma triangular, apresentando 160 km de comprimento e 250 km de largura. No Delta o Nilo bifurca-se em dois canais que levam as suas águas para o Mediterrâneo: a oeste, o canal de Roseta, e, a leste, o de Damieta.


Cataratas
O Nilo possui várias cataratas, mas na antiguidade distinguiam-se seis cataratas clássicas do Nilo que estavam situadas entre Assuão e Cartum.

A primeira catarata situa-se em Assuão, constituindo hoje em dia a única catarata do Nilo em território egípcio. Esta catarata era na Antiguidade a fronteira sul do Antigo Egito, pois a partir dali começava a Núbia.

A segunda catarata, perto de Uadi Halfa, encontra-se hoje submersa. O faraó Senuseret III ordenou a construção nas suas redondezas das fortalezas de Semna e Kumma.


Barragens
Ao longo do curso do Nilo existem algumas barragens, sendo uma das mais importantes a Grande Barragem de Assuão.

Entre 1899 e 1902 construiu-se, com recurso e capitais ingleses, a primeira barragem de Assuão, que foi alargada em 1911 e 1934.

Entre 1959 e 1970 construiu-se a Barragem de Assuã, a cerca de oito quilometros da primeira barragem, graças ao apoio fornecido pela União Soviética.


Exploração

  • Julga-se que os Antigos egípcios conheciam o Nilo até ao ponto de confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul, em Cartum. Embora não tenham explorado o Nilo Branco, acredita-se que conheceriam o Nilo Azul até à sua nascente no Lago Tana.

  • Em meados do século V aC, o historiador grego Heródoto realizou uma viagem ao Egito, tendo percorrido o rio até Assuão, a fronteira tradicional do Antigo Egipto.

  • No século II aC Eratóstenes desenhou um mapa que mostrava de forma bastante precisa o percurso do Nilo até Cartum, no qual também se mostravam dois afluentes, o Atbara e o Nilo Azul. Eratóstenes foi o primeiro a postular que a nascente do Nilo estaria em lagos equatoriais.

  • Em 25 aC o geógrafo Estrabão e Aelius Gallus (governador do Egito romano) exploraram o Egito até Assuão. Estrabão descreveu também o rio no Livro 17 da sua Geografia, aludindo às teorias de Eratóstenes.

  • Em 66 dC, na época do imperador Nero, o exército romano tentou encontrar a nascente do rio. Porém, segundo Sêneca, o pântano Sudd, impediu o exército de avançar. Ainda no século I um mercador grego chamado Diógenes relatou ao geógrafo Marino de Tiro que durante uma viagem pela costa oriental africana decidiu penetrar pelo continente, tendo ao fim de vinte e cinco dias chegado junto a dois grandes lagos e a uma cadeia de montanhas cobertas de neve de onde o Nilo nasceria.

  • No século II Ptolomeu utilizou esta informação para fazer um mapa onde se mostrava o Nilo Branco a nascer desses lagos, que recebiam as suas águas das Montanhas da Lua (Lunae Montes). É provável que estas montanhas sejam os montes Ruvenzori, situados entre o Uganda e o Zaire.

  • No século XII, Muhammad Al-Idrisi atribui como nascente do rio Nilo e do rio Níger um lago.

  • Em 1618 o jesuíta Pero Pais (ou Pedro Páez) foi o primeiro europeu a localizar as nascentes do Nilo Azul no Lago Tana.

  • Em 1770 o escocês James Bruce realizou uma viagem de exploração do Nilo Azul no Lago Tana, ficando com a fama de descobridor da sua nascente, embora o jesuíta ali chegou primeiro.

  • A partir do ano de 1821 o vice-rei do Egito Mehmet Ali e os seus filhos seriam responsáveis por várias viagens de exploração do Nilo.

  • Em Dezembro de 1856, Richard Francis Burton convidou John Hanning Speke para participar numa expedição aos grandes lagos da África Oriental. Em resultado da expedição Burton e Speke tornaram-se os primeiros europeus a chegar ao Lago Tanganica em fevereiro de 1858. Na viagem de regresso Speke viajou em sentido norte e descobriu o Lago Vitória (que recebeu este nome em honra da rainha Vitória) e que considerou como nascente do Nilo.

  • Em 1860, sob os auspícios da Royal Geographical Society, Speke realiza uma nova expedição à região acompanhado por James Grant, da qual resultaria a descoberta do rio Kagera e do local de saída do Nilo a partir do Lago Vitória (as Quedas de Ripon, 1862).




Leia também: O dom do Nilo

Fonte: Wikipédia

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Egito romano

Trinta anos antes da era cristã, Cleópatra VII, a última governante ptolomaica estava morta. Augusto (imagem ao lado) havia posto o Egito sob o governo dos povos romanos, sob sua própria administração. Uma terra capaz de produzir quantidades enormes de alimentos e fácil de defender não se poderia tornar uma base para nobres ambiciosos: ela seria governada por um prefeito. O prefeito regia com a ajuda do exército, em pequenas unidades espalhadas pelo país. Precisa garantir a coleta de impostos e o transporte de grãos, para alimentar os romanos em sua terra natal.

Alexandria continuou sendo o principal centro do governo e as antigas divisões dos nomos (províncias) com suas cidades metropolitanas foram mantidas. O latim era o idioma dos exércitos, mas a maioria dos detalhes burocráticos era registrado em grego. Em todo o Egito, durante a época ptolomaica, a linha divisória entre os gregos e os egípcios havia se tornado mais sutil com o passar do tempo, pois o critério para ser um grego era aparentemente a simples capacidade de falar grego e dizer que era grego. Uma circunstância que os conquistadores romanos achavam incompreensível e intolerável. Os gregos eram gregos e os egípcios não eram; então, eles tornaram as regras mais rígidas para garantir que esta confusão não acontecesse. Os gregos tinham que comprovar suas origens.

Os egípcios eram considerados uma classe inferior e foram compilados regulamentos por escrito, conhecidos como o Gnomon do Idios Logos, para permitir que as autoridades romanas reforçassem este preconceito e estabelecessem penalidades fixas. Uma grande parte destas normas sobreviveu em um documento de papiro.


  • Os impostos
eram injustamente aplicados, com os ricos pagando menos. Os cidadãos de Alexandria eram imensamente privilegiados e pagavam poucos impostos. Os cidadãos das cidades provincianas pagavam mais e os habitantes egípcios da zona rural, muito mais pobres, pagavam muito mais. Um dos mais caros era o imposto da «apuração de votos» introduzido pelos romanos e perpetuado durante os primeiros 3 séculos de seu governo.

Somente os cidadãos de Alexandria podiam requerer o grande prêmio dos primeiros séculos do governo romano «a cidadania romana». Mas mudou perto do ano 200 dC , quando o imperador Sétimo Severo permitiu que Alexandria tivesse um senado e as capitais dos nomos instituíssem conselhos. Os impostos não foram aliviados, o que impedia a prosperidade agrícola. Os homens fugiam de suas casas e de fazendas porque não conseguiam pagar, mas os aldeãos da mesma categoria que eles tinham que recuperar o dinheiro perdido e eram forçados a trabalhar na terra abandonada. Nos locais em que aldeias inteiras eram abandonadas, as comunidades vizinhas eram obrigadas a assumir o fardo do imposto.

Os membros da classe magistral que, em séculos anteriores pagavam com muito boa vontade pela construção de edifícios e pelos serviços públicos, como o fornecimento dos óleos para os banhos, foram forçados a executar suas tarefas de maneira compulsória e em geral eram financeiramente arruinados pela imposição das taxas adicionais. Os coletores de impostos, quando não recebiam as quantias que lhes eram devidas, recorriam à violência e ao encarceramento dos membros da família dos contribuintes relutantes.

Houve muitos períodos durante o governo romano em que a vida se tornou intolerável, mas os séculos V e VI foram provavelmente os mais prósperos para o povo em geral. O tributo para a «apuração de votos» parece ter sido abolido pelo imperador Diocleciano, perto do final do século III. Mas muitas outras taxas continuavam e novas eram introduzidas, com o annona militaris, um imposto para o benefício do exército, e o«imposto da coroa», pago em ouro ao imperador pelas cidades e suas dependências. Muito diferente dos Ptolomeus, que haviam armazenado os grãos e o ouro no Egito, os imperadores romanos levaram embora a maioria destes produtos. Houve uma inflação lenta com o passar dos séculos, mas os preços aumentaram drasticamente apenas a partir do final do século III.

O imperador Diocleciano ordenou as mudanças mais abrangentes na organização do Egito romano, desde a administração original de Augusto. Perto do final do século III, Diocleciano dividiu o país em 3 províncias, para propósitos de administração:

  1. o Egito Jovia juntamente com Alexandria, era governado pelo prefeito do Egito,
  2. o Egito Hercília e
  3. o Egito Tebaida tinham governadores diferentes.
O latim se transformou cada vez mais no idioma da burocracia. Diocleciano também revisou a estrutura dos impostos, introduzindo ciclos de acusações e períodos fixos de arrecadação fiscal, de forma que as pessoas entendiam mais o que se esperava delas. As demandas arbitrárias e inesperadas tornaram-se menos frequentes. As divisões e as amalgamações adicionais do país continuaram durante todo o final do período romano.

Houve várias rebeliões contra o domínio romano. Perto do final desse domínio, os persas ficaram no controle do país durante uma década e foram expulsos em 627; menos de 15 anos depois, os árabes vieram para ficar. Eles destruíram o forte da Babilônia, próximo do local onde a cidade do Cairo seria mais tarde erguida, e depois ocuparam Alexandria em 642, colocando um fim no governo romano depois de quase 700 anos.

Augusto via o sacerdócio egípcio como um centro de patriotismo, desassossego e rebelião e por isso restringiu severamente seus poderes e seus privilégios. Com o triunfo do cristianismo, os oficiais religiosos, principalmente os patriarcas de Alexandria, tornaram-se imensamente poderosos e puderam contrariar as intenções dos governadores do Egito e até mesmo do imperador. O monasticismo foi desenvolvido no Egito. O cristianismo uniu os gregos do Egito com a população egípcia. Como ali se falava mais egípcio do que grego, a Bíblia e os textos cristãos sagrados foram escritos em um idioma que veio a ser chamado de copta, o idioma egípcio escrito com letras gregas e alguns caracteres adicionais da escrita demótica. Com o passar do tempo, o copta começou a ser usado em documentos seculares, apesar do grego continuar sendo muito escrito no período árabe.


  • O Egito em que os romanos chegaram
era muito parecido com o país dos tempos faraônicos remotos, um país definido pelo rio Nilo, que cortava o deserto de norte a sul, com alguns quilômetros de terra cultivada. O rio dividia a região a norte da cidade de Mênfis, que era muito grande e já havia sido a capital real, em duas partes principais; as outras cidades localizadas entre estas duas zonas, junto com elas, formavam o Delta, que era intensamente cultivado. No Egito a agricultura dependia da cheia anual, que nos melhores anos levava água aos locais mais distantes das áreas cultivadas e cobria o solo com o fértil lodo do Nilo. O rio era rico em peixes, comidos frescos, defumados ou usados na produção de temperos. As principais plantações eram de trigo, uvas para fazer vinho em quantidades enormes, especialmente no final do período romano. Nos pântanos do Delta, crescia o papiro. A maioria das pessoas vivia em aldeias na zonal rural e muitas nas principais cidades de cada nomo, que se tornaram vilas de crescimento, poucas avenidas principais retas normalmente flanqueadas por edifícios públicos e pontilhadas de templos. Alexandria era um grande armazém, que não fabricava nada muito importante, mas recebia e exportava os produtos do Egito e os materiais exóticos da Índia e do Oriente, trazidos nas épocas das monções aos portos do Mar Vermelho e transportados para o Nilo por todo o deserto.

Muitos dos templos das cidades foram construídos nos estilo egípcio tradicional; mas os edifícios clássicos introduzidos pelos Ptolomeus e no período romano tornaram-se mais evidentes em todo país. Além dos templos clássicos, outros edifícios públicos de formato clássico também foram construídos:

teatros,
hipódromos,
ginásios,
termas,
ninfáceas,
ruas colunadas,
arcos triunfais e
colunas honoríficas.






Alguns dos templos faraônicos presentes nas cidades e aldeias eram muito antigos, mas grande parte dos mais completos e que sobrevivem até hoje foram erguidos pelos Ptolomeus e pelos romanos. Foram construídas igrejas esplêndidas. É possível que no final do século III a maioria dos egípcios já era cristão, ocorrendo um declínio progressivo das religiões pagãs.


  • A arte e o artesanato
do Egito romano continuaram e também modificaram todos os estilos do passado. As pinturas murais que normalmente retratavam as deidades – Ísis, Atenas... – decoravam muitas das casas localizadas nas aldeias e nas cidades. Durante os primeiros anos do governo romano, algumas esculturas seguiam os estilos tradicionais, mas começou a mudar na época dos ptolomeus. As belas e realistas estátuas de pedra e bronze tornaram-se iguais àquelas produzidas em outras partes das terras clássicas. Apesar do marmóreo branco ser geologicamente escasso no Egito, ele não parece ter sido explorado nos tempos faraônicos, é muito usado durante os períodos ptolomaico e romano tenha sido importado. A fundição do bronze era há muito praticada no Egito e as figuras ocas e volumosas, produzidas pelo processo de encerramento, eram desenvolvidas já no Terceiro Período Intermediário. Durante a época ptolomaica, uma enorme variedade de figuras de terracota foi desenvolvida nas aldeias e nas cidades do Egito, a maioria associada à religião popular, à proteção do povo contra o sobrenatural e a seu bem estar em todos os desastres naturais que pudessem acontecer. Desde o século I dC até os tempos medievais, os ateliês de cerâmica de Assuan tiveram uma produção vasta de mercadorias de barbotina, cerâmica vermelha e de vasos pintados. Algumas da joias de ouro do Egito romano descendiam diretamente das da Dinastia Ptolomaica, particularmente as pulseiras e os anéis de serpente. Os tecidos elaborados, recuperados em vastas quantidades nos sepulcros e nas cidadelas egípcias. Os tecelões do Egito confeccionavam os artigos de vestuário com apenas uma peça e os decoravam ricamente, com motivos de plantas, animais e humanos.

A mumificação continuou nos primeiros 3 séculos do domínio romano e muitas múmias finamente ornadas datam deste período.

Fonte: 'Tesouros do Egito do Museu Egípcio do Cairo'

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Bandeira do Egito

O emblema nacional do Egito não parou de se modificar ao longo dos séculos, ao sabor das sucessivas ocupações, dos regimes ou das circunstâncias políticas. Acompanhar essa dança das cores é mais um meio de folhear a história. Diante da impossibilidade de recuar por milênios, comecemos pelo fim do período copta, quando o país se separa do império bizantino. Foram 12 mudanças desde o início da era islâmica.

Em 640, com a tomada árabe o Egito adotou a bandeira branca dos omíadas, depois a negra dos abássidas e dos tulunidas, antes de associar-se à bandeira verde de seus novos senhores, os fatímidas. Uma volta ao negro na época dos aiúbidas. A partir de 1250, com os mamelucos no poder, o amarelo se impôs. Cada príncipe tinha suas cores.

Conquistado pelos otomanos em 1517, o Egito adotou a bandeira desse império: uma lua branca em fase de quarto crescente com uma estrela branca dentro, sobre fundo vermelho. Três séculos mais tarde, durante o reinado de Mohammed Ali, um Egito ainda otomano, desejoso de sua independência, substituiu a estrela de seis pontas por uma de cinco. O quediva* Ismail levou mais longe a diferenciação, adotando três crescentes e três estrelas sobre fundo vermelho.

O Egito proclamado reino independente em 1922, escolheu uma bandeira verde, com um crescente branco e três estrelas. Depois da revolução de 1952, a essa bandeira acrescentaram uma segunda, chamada "da libertação", que nada tinha em comum com as precedentes:

era composta de três faixas horizontais – vermelha, branca e negra
  1. vermelho – a luta contra o ocupante britânico
  2. branco – a revolução de 1952, que não derramou sangue
  3. negro – o fim da opressão

A nova República árabe unida fez dela seu emblema, em 1958, quando o Egito se uniu à Síria. E sobre a faixa branca passaram a figurar duas estrelas verdes. Duas para começar, pois subentendia-se que outras seriam acrescentadas com a adesão de países irmãos ao movimento. Sem nenhuma lua, a bandeira tornou-se mais laica e menos poética. O Egito e a Síria separaram-se em 1961, e mais uma vez surgiu a questão do símbolo nacional. A república árabe desunida conservou o emblema escolhido em 1958 como se nada tivesse mudado.

Em 1972, com Anwar al-Sadat como presidente, a bandeira mudou, substituindo as duas estrelas por um falcão dourado bordado na bandeira, e as três faixas foram mantidas com o mesmo significado. Hosni Mubarak também imprimiu sua marca no símbolo nacional em 1984, o falcão foi trocado por uma águia de Saladino.



As bandeiras:



Bandeira do Egito de 1972 - 1984






Bandeira da República Árabe Unida de 1958 - 1961






Bandeira da Revolução Egípcia de 1952







Bandeira do Reino do Egito de 1922 - 1952





Bandeira no período de 1831? - 1914





Bandeira do tempo do domínio do Império Otomano, no século XIX




____________________
* quediva: termo persa com o significado de senhor
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Veja também: Bandeira do Egito


Origem: 'Egito um olhar amoroso' de Robert Solé

sexta-feira, 24 de julho de 2009

No Antigo Império...

No organizado mundo do Antigo Império ( cerca de 2575-2150 a.C ) existem:
  • um exército
  • uma polícia
As forças militares não têm um exército regular, têm tropas recrutadas pelos nomarcas nas suas províncias e enviadas à capital quando necessário. Consistem mais de milícias temporárias do que de regimentos profissionais. Este exército é necessário em circunstâncias precisas:
operações de comandos na Líbia, na Palestina, na Núbia e no Sinai. O Antigo Império não procura conquistar territórios estrangeiros, mas conter ordem nas zonas de influência. Corpos de elite têm uma função paramilitar – trata-se essencialmente da guarda do palácio, que assegura a proteção do rei e de intérpretes que falam línguas estrangeiras e servem de diplomatas ou negociadores. São eles que estão encarregados de concluir tratados comerciais com o estrangeiro. Do armamento dos soldados fazem parte:
  • lanças,
  • punhais,
  • machados,
  • maças,
  • fundas,
  • diversos tipos de arcos e
  • escudos em madeira ou em couro
os materiais comuns são a pedra para as maças herdadas da pré-história e o cobre.

A guarda palaciana exercia as funções de polícia do Estado, os nomarcas possuíam "policiais" locais, indispensáveis para resolverem os problemas da aldeia e fazerem reinar a ordem nas estradas. Existe as brigadas especializadas como a dos "caçadores" – uma verdadeira polícia do deserto, que responde pela segurança nos itinerários dos confins orientais e ocidentais do país.

Mênfis é a capital e a grande cidade do Antigo Império. Conservará sempre uma importância econômica que varia com as épocas, mas que nunca é desprezível em toda história faraônica.

Heliópolis é a capital teológica do país, situada não muito longe de Mênfis. Cidade santa, local onde se erguia o templo do deus Rá. Cidade venerada por todos os faraós até os Ptolomeus. Ali batia o coração religioso do primitivo Egito. Do esplendor da cidade solar, dos seus numerosos e magníficos monumentos, resta hoje apenas um único vestígio:
  • o obelisco de Sesóstris I

Os chefes das províncias, os nomarcas – levam uma vida de riqueza. Condutores do país, na medida em que a prosperidade do seu nomo depende da sua gestão. Alguns deles se fazem representar nas paredes de sua sepultura numa postura quase real, dá-se ao luxo por vezes da barba postiça, privilégio dos deuses e dos reis.

De todas as riquezas desta época, uma deve ser particularmente assinalada porque pertence propriamente ao Antigo Egito e não à cultura árabe que cobriu todo o país: a vinha. Grandes comedores de carne, amantes de legumes e de frutas, os antigos egípcios apreciavam muito o vinho. A produção do Estado era importante e os particulares plantavam vinhas nos seus jardins. A qualidade era severamente verificada, principalmente, as colheitas que envelheciam nas caves do rei e dos notáveis. O nascimento da designação controlada remonta ao Egito do Antigo Império, em vista do que se lê nas etiquetas de ânforas com vinho:

"O ano X do rei TAL, vinho de TAL qualidade proveniente de TAL vinhateiro".

As principais regiões produtoras situavam-se no Delta e nos oásis, geridas por um governador e fornecendo igualmente natrão. Certas colheitas excepcionais foram conservadas durante 2 séculos antes de serem consumidas. Nestas circunstâncias não é de se admirar que a deusa Hathor tenha sido ao mesmo tempo a padroeira do amor e a da embriaguez. O tema da embriaguez divina faz parte do mais velho substrato da religião egípcia.

Não haviam os egípcios do Antigo Império convidado os deuses para um dos mais belos banquetes da História, durante o qual se sentaram lado a lado grandes faraós, construtores de pirâmides, escultores inspirados e simples mortais cuja existência assumia sentido porque era integrada na harmonia de uma civilização autêntica?

Fonte: 'O Egito dos Grandes Faraós' de Christian Jacq

terça-feira, 16 de junho de 2009

O interesse pelo Egito faraônico

Os gregos e a mitificação do Nilo
O Egito sempre chamou a atenção de diferentes povos por sua paisagem singular, sua fauna e flora surpreendentes e por seus impressionantes monumentos. Apesar dos contatos do Egito com o Mediterrâneo Oriental serem milenar, foram os gregos que iniciaram o processo de mitificação do Egito. Por volta de 450 a.C , o historiador grego Heródoto se dirigiu ao Delta do Rio Nilo para recolher material que utilizaria em seu livro de Histórias, em que procurava explicar a luta de gregos e persas remontando aos costumes e tradições dos povos orientais, com destaque para o Egito. Os gregos se surpreenderam com o regime das cheias do Nilo, com o sistema de escrita, que acreditaram ocultar verdades sagradas – por isso o nome hieróglifos, do grego hiero "sagrado" e glifos "escrita" – e com seus ritos funerários, que contribuíram para despertar assombro e admiração. Heródoto ficou impressionado com a cheia do Nilo e com sua importância para a agricultura egípcia. Em seu texto mais conhecido sobre o Nilo escreveu o seguinte:
"Em todo o mundo, ninguém obtém os frutos da terra com tão pouco trabalho. Não se cansam a sulcar a terra com arado ou a enxada, nem têm nenhum dos trabalhos que todos os homens têm para garantir as colheitas. O rio sobe, irriga os campos e, depois de os ter irrigado, torna a baixar. Então, cada um semeia o seu campo e nele introduz os porcos para que as sementes penetrem na terra; depois, só tem de aguardar o período da colheita. Os porcos também lhe servem para debulhar o trigo, que é depois transportado para o celeiro". Heródoto, 2,14.

Outro autor grego, Diodoro, por seu lado, declara que o Nilo supera todos os rios do mundo pelos benefícios que trazia ao Egito:
"A maior parte deles lança apenas a semente, leva os rebanhos para os campos e eles enterram as sementes: quatro ou cinco meses depois, o camponês regressa e faz a colheita. Alguns camponeses servem-se de arados leves, que removem apenas a superfície do solo umedecido e depois colhem grandes quantidades de cereal sem grande despesa ou esforço. De uma forma geral, entre os outros povos, todo o tipo de trabalho agrícola comporta grandes despesas e canseiras; entre os egípcios é que a colheita se faz com poucos meios e pouco trabalho". Diodoro Sículo, 1,36.

O fato de Diodoro e Heródoto se impressionarem com o imenso rio, não era estranho, já que a Grécia era uma terra essencialmente árida e seca, onde a prática da agricultura consistia em esforço digno de Titãs. O que os gregos, nem os egípcios, sabiam era que a cheia ocorria em função de chuvas na África tropical e do degelo nas terras altas etíopes.
  • A cheia ocorria em junho em Assuã e, como não eram detidas as águas por barragens ou diques, dirigiam-se para o norte, atingindo Mênfis, cerca de 3 semanas depois.
  • Antes disso, cobria terras aráveis por meio de um processo de infiltração.
  • De agosto a setembro, todo o Vale do Nilo encontrava-se inundado e,
  • Em outubro, o nível das águas baixava, deixando o solo úmido e coberto de uma lama cheia de detritos orgânicos e de sais minerais.
Durante todo esse processo de inundação, o trabalho do camponês era fundamental e diante do espetáculo causado pelas cheias, escapou, ao olhar de Heródoto, as dificuldades e a lida do camponês na limpeza dos canais, na semeadura e na colheita, durante os trabalhos agrícolas.

Assim, a imagem mítica do Egito, entre os gregos, deveu-se à admiração pela cheia do Nilo e ao extraordinário poder gerador de vida que resultava da fertilização, considerada quase mágica, do solo às margens do rio Nilo. Desde o início, o interesse pelo Egito revestia-se de um caráter misterioso, derivado da imensa fecundidade da natureza egípcia e que obscurecia a importância do trabalho humano na valorização dos benefícios das cheias.

A expedição napoleônica, a egiptomania e a egiptologia
A expedição napoleônica ao Egito marca a passagem do conhecimento indireto do Egito para a informação direta, marcando a chamada pré-egiptologia (Heródoto, Diodoro da Sicília, Estrabão, Manetôn). O Egito era para França e para a Europa uma terra desconhecida. Sobre ela havia notícias sobre botânica, geologia e arquitetura, a expedição tinha como objetivo fazer uma descrição científica do vale do Nilo. A nau capitã, chamada O Oriente, levava uma pequena biblioteca e alguns estudiosos do tema. A fundação do Instituto Nacional do Egito, em agosto de 1798, é uma das marcas da expedição do imperador francês Napoleão Bonaparte ao Egito. A piblicação, em 1812, da Description de l'Egypte, resultado das pesquisas feitas pelos franceses, obra com:
  • 12 volumes
  • 4000 páginas
  • 3000 ilustrações,
resultou em um desenfreado colecionismo. A obra aborda temas de astronomia, agricultura, instrumentos musicais, geografia, clima, flora, fauna, artes, ofícios, usos e costumes. As peças egípcias, que antes eram reunidas pela simples curiosidade ao estranho e ao exótico, passam a ter interesse cultural.

A criação se seções egípcias em museus da Itália, França, Alemanha, Áustria, Inglaterra, Suécia, Rússia e nos EUA é um dos reflexos da publicação da Description l'Egypte. Aliada à criação das seções egípcias, assistimos à produção acadêmica, à formulação de catálogos e ao aumento de bibliotecas especializadas. As viagens ao Egito e a divulgação de imagens, litografias, relatos de usos e costumes leva a uma vasta reutilização de motivos do Antigo Egito para a criação de objetos e narrativas contemporâneos. Egiptomania, revificação egípcia, estilo do Nilo, faraonismo, passam a expressar o mesmo fenômeno. As primeiras universidades que instituem os cursos de egiptologia, na estrutura curricular foram:
  1. Sorbone em Paris,
  2. Universidade de Berlim na Alemanha,
  3. Oxford e Londres na Inglaterra e
  4. Universidade de Pisa na Itália
Nos últimos 200 anos, a egiptologia tornou-se uma disciplina científica que é estudada em todos os continentes, com dezenas de universidades envolvidas e com pesquisas a partir de abordagens mais variadas, em diversos contextos. Na América Latina, destacam-se pesquisas do Uruguai, Argentina, com trabalhos arqueológicos de campo no Egito, e do Brasil.


egiptofilia – o gosto pelo exotismo e posse de coisas relativas ao Egito antigo

egiptomania – reinterpretação e re-uso de traços da cultura do antigo Egito de uma forma que lhe atribua novos significados

egiptologia – ciência que trata de tudo do Egito antigo. A busca e o culto pelos vestígios originais, daquela época, caracterizam a egiptologia. Conjuga ciência e imaginação, ao formar a sua substância e partir dos dados acadêmicos, do saber popular, transmitido por viajantes e escritores, e do repertório de crenças e mitos universais.



Origem: livro 'Imagens do Egito Antigo' um estudo de representações históricas de Raquel dos Santos Funari e fotos: imagens Google.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A geografia egípcia

O Egito foi o primeiro povo na terra a criar um Estado nação. Incorporando crenças espirituais e aspirações de seu povo, se estabeleceu como uma teocracia. Com uma cultura extraordinariamente forte, confiante e duradoura, se mantendo por 3000 anos, com pureza de estilo. No antigo Egito – Estado, religião e cultura, formavam uma unidade incontestável.

___________A geografia______________
Impossível conceber a civilização egípcia antiga, sem considerar sua situação geográfica:
  1. o deserto
  2. o rio Nilo
  3. o vale produtivo
Os egípcios se conscientizaram tanto da imobilidade quanto do isolamento nacionais. Achavam ter sempre habitado o vale do Nilo como uma raça diferenciada e que o território com seus desertos circundantes, existira desde a criação. Se enganavam, pois houve uma época que todo o Egito foi habitável. Por volta de 10.000 a.C , as chuvas locais diminuíram aceleradamente, e as pastagens e savanas da planície egípcia se transformaram em deserto.

O Nilo parece ter começado a adquirir seu curso atual há cerca de 10.000 anos. Por muitos milênios, a região desde a Primeira Catarata até Tebas foi um lago, ao passo que grande parte do delta permaneceu alagadiça até a nossa era.

Desde os tempos mais remotos, os egípcios dividiram o país em duas partes: 
  1. keme a negra – cultivável e habitável
  2. deshret a vermelha – o deserto
Tal dualismo parece ter sido incorporado pela personalidade egípcia. O próprio país foi visto como dividido em duas metades:
  • o Vale – Alto Egito
  • o Delta – Baixo Egito
A configuração geográfica do Egito se completou com suas barreiras externas:
ao sul – as cataratas cortam o país
a oeste – o Deserto líbio
ao leste – o Deserto Oriental, mar Vermelho e o Deserto do Sinaí
ao norte – o Delta


O Nilo – isolado do resto do mundo, o Egito foi dominado pelos ritmos de seu rio. Entre a baixa das águas e a inundação, o volume aquático do Nilo Azul, se eleva em média de 2133 metros cúbicos por segundo para mais de 106.680. Em Elefantina, próximo a Primeira Catarata, e no Velho Cairo, os antigos egípcios estabeleceram os nilômetros – marcos de pedra à margem do rio para registrar e predizer seu comportamento. O Nilo e sua inundação, chamada Hapi, eram venerados como deuses.



Hapi era barbado, com alismas germinando de sua cabeça e seios femininos pendurados em seu corpo, simbolizando a fertilidade. 
O ano agrícola começava quando as águas transbordavam, o processo tinha que estar pronto até o fim de maio, quando as águas voltavam a subir. O ano agrícola era constituído de 3 temporadas:  1. inundação   2. semeadura   3. colheita

O Nilo além da fertilidade, proporcionou aos egípcios o transporte, e foi o país da antiguidade com melhor comunicação interna. Construíram barcos de sicômoro, a única árvore que o país produzia em abundância. A indocilidade do rio estimulou a criação e a organização de uma economia de armazenamento.

  • A emergência do Egito como uma potência civilizada no fim do 4º milênio antes de Cristo – sua "ascensão" como uma cultura incorporada a um Estado e uma economia – foi uma conquista e um processo sobretudo religioso (um dos primeiros centros no Egito a adquirir uma personalidade religiosa definida e a agir como um foco político foi Heliópolis, com o deus-Sol Rá); e foi exatamente o declínio da vitalidade religiosa que levou a cultura egípcia ao colapso nos primeiros séculos da era cristã. 

Origem: 'História Ilustrada do Egito Antigo' de Paul Johnson

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Uma longa cronologia egípcia

As mudanças do nível do Nilo, parecem coincidir com os altos e baixos da história política do Egito. Um nível muito baixo – reduzia as plantações a campos secos e estéreis; alto demais – danificava os sistemas de irrigação. Ambos os extremos provocavam fome e caos.

Tradição artística
4500 a 3000 a.C
Uma predileção pelo ornamento aparece na cerâmica mais antiga. Vasos pré dinásticos apresentam desenhos geométricos entalhados, hipopótamos e crocodilos moldados e motivos pintados, como barcos a remo e dançarinos. A cerâmica era comum em todo o Egito e as mudanças de estilo fornecem pistas para a datação de locais.

Surgimento do Estado
cerca de 3100 a.C
Na era primitiva, coroas diferentes simbolizam a autoridade em cada uma das regiões: os governantes do Alto Egito usam uma coroa branca; os do Baixo Egito, uma coroa vermelha. Juntas elas formam a coroa dual, símbolo da unificação das duas regiões.

O rei-serpente
2950 a 2775 a.C
A serpente ou djet, identifica o 3º rei da 1ª dinastia numa estela de pedra – na verdade o seu túmulo. A estela contém a representação de um edifício e do deus falcão Hórus, ressaltando o nome do rei. Esse monumento encontra-se em Abydos, mas o corpo do rei provavelmente foi destruído por saqueadores.

Uma figura pública
cerca de 2650 a.C
Embora não fosse rei nem sacerdote, Imhotep teve seu nome imortalizado graças a seus múltiplos talentos. Conselheiro do rei Djoser, arquiteto da pirâmide de Saqqara e provável autor de textos literários e médicos, foi reverenciados pelos egípcios como deus da sabedoria. Estatuetas o mostram segurando um rolo de papiro.

Morte nobre 
2650 a 2150 a.C
Os faraós tinham na morte as mesmas necessidades da vida. A tumba tornava-se sua morada terrena, onde ele dispunha de alimento, bebida e bens materiais. Sua múmia, preservada para a eternidade com as feições intactas, era o portal entre os dois mundos, oferecendo ao seu espírito um caminho para o reconhecimento do sustento do corpo.

Transição e declínio
2350 a 2159 a.C
Figuras esqueléticas na pirâmide de Unas, o último rei da 5ª dinastia, prenunciam a fome que contribuiu para lançar o Egito no Primeiro Período Intermediário. "O país inteiro parece um gafanhoto faminto", diz uma terrível inscrição da época. Outros textos registram seca, tempestades de areia e até uma mulher que foi obrigada a comer pulgas.

Reunificação
2010 a 1960 a.C
Devastado por lutas políticas, fome e doenças, o Egito dividiu-se em dois estados antagônicos. Quando assumiu o trono de Tebas, Mentuhotep II decidiu reconquistar o Baixo Egito. A sucessão de nomes que adotou reflete o progresso de seu reinado: Aquele que Dá Ânimo às Duas Terras, Senhor da Coroa Branca(Alto Egito) e por fim, Unificador das Duas Terras.

Avanço à Núbia
1900 a 1800 a.C
O Egito enviou muitas expedições à Núbia a fim de obter pedras para construção, marfim e outros artigos de luxo. Após as convulsões do Primeiro Período Intermediário, conquistou o território núbio até Semna, no sul, para assegurar a fronteira e as rotas comerciais. Muitos núbios capturados foram incorporados depois às tropas egípcias.

Domínio asiático
1630 a 1520 a.C
Estrangeiros conhecidos como hicsos controlaram o norte do Egito durante o Segundo Período Intermediário. Nas crônicas, eles foram apresentados como invasores e péssimos governantes. Apesar disso, os hicsos provavelmente originários da Ásia ocidental, mantiveram intacta parte da cultura e da estrutura política do Egito.

Comércio com Punt
1473 a 1458 a.C
Em algum lugar ao sul do Egito situava-se a terra de Punt. Expedições comerciais, que para chegar lá cruzavam o Mar Vermelho, retornavam com artigo de luxo como mirra, ébano, marfim e babuínos. Um relevo no templo da rainha Hatshepsut, em Deir el Bahari, retrata a corpulenta rainha de Punt recebendo uma dessas delegações.

A queda de Jope
cerca de 1450 a.C
Durante o Novo Império, as guerras travadas contra as cidades estado da Ásia ocidental visavam proteger o Egito de invasões, mas a vitória redundou em ricos butins e cativos que se tornaram trabalhadores valiosos. Tutmóses III deixou um legado de campanhas respeitado no Egito por muito tempo. O cerco de Jope, , atual Jafa, em Israel, tornou-se legendário. Segundo um raro papiro, o general comandante Djehuty recorreu a um estratagema para romper a resistência da cidade. Mandou entregar a Jope cestos que deviam conter bens saqueados pelo príncipe local. Naquela noite, os soldados egípcios saíram dos cestos e abriram as portas da cidade.

Faraó herege
1353 a 1336 a.C
Os raios de sol iluminam Akhenaton, sua rainha Nefertiti e suas filhas numa cena que ilustra uma breve e radical experiência religiosa. Abandonado Amon-Ra, o deus do Estado, o faraó passou a adorar o deus Aton e trocou seu nome, Amenófis "Amon está contente", por Akhenaton "servidor de Aton". Mas seus sucessores retomaram a antiga religião.

Guerra e paz
1279 a 1213 a.C
Expandindo-se desde sua base, na Ásia Menor, os hititas desafiaram o poderio egípcio na costa oriental do Mediterrâneo. Após uma série de batalhas nas quais nenhum dos lados prevaleceu, o egípcio Ramsés II e o hitita Hatusil III assinaram um tratado. Os dois impérios tornaram-se aliados e Ramsés II escolheu uma princesa hitita para ser uma de suas esposas.

Nova ambição
945 a 925 a.C
Um militar de origem líbia, Sesonq I – o rei Sesac da Bíblia – assumiu o poder num país dividido. Depois de impor sua autoridade sobre os centros rivais de Tânis e Tebas, voltou sua atenção para o exterior. O rei Salomão havia morrido e as duas partes de seu reino, Judá e Israel, estavam em conflito. Esperando recuperar o controle das rotas comerciais no território que fizera parte do Império Egípcio, Sesonq invadiu a Palestina. Parte de seu exército marchou para o Negueb e o restante para várias cidades do norte. Jerusalém pagou uma fortuna em tributos, e Sesonq recuou. Suas vitórias foram imortalizadas num relevo em Karnak.

Domínio persa
525 a 332 a.C
O Egito não resistiu aos persas. Conquistado por Cambises, tornou-se uma simples província de um vasto império. Os egípcios os expulsaram, mas Nectanebo II, o último rei da 30ª dinastia, foi também o último soberano nativo. Os persas recuperaram o controle até serem derrotados por Alexandre, o Grande.

Alexandre e os ptolomeus
332 a 30 a.C
Antes de deixar o Egito, Alexandre, o Grande, fundou Alexandria, cidade que se tornou um centro de literatura, filosofia e ciência do mundo antigo. Alexandre morreu na Babilônia, aos 33 anos de idade. Um dos seus generais, Ptolomeu, assumiu o controle do Egito, dando início a uma dinastia grega que adotou o estilo dos faraós. Alguns pesquisadores entendem que Cleópatra, última representante da dinastia, foi a única que aprendeu a falar egípcio. Como Roma tornara-se uma grande potência no Mediterrâneo, Cleópatra aliou-se a Júlio César e, mais tarde a Marco Antônio, mas em vão Derrotada pelas forças de Otávio na batalha de Áccio, ela se suicidou.

A era romana
30 a.C a 395 d.C
As importações de cereais egípcios eram importantes para a crescente população de Roma. Para legitimar seu domínio aos olhos dos egípcios, os romanos resgataram tradições reais como a construção de templos. Quando o Império Romano se dividiu, os governantes bizantinos assumiram o Egito.

Fonte: Encarte da Revista National Geographic Brasil – 2001

sábado, 23 de maio de 2009

O fascinante mundo do Antigo Egito

"Soldados! do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam"
(Napoleão Bonaparte)

Napoleão errou por pouco, as pirâmides de Gizé tem mais de 4500 anos. O fascínio que o Antigo Egito exerce sobre nós continua irresistível, atraindo nosso interesse até os dias atuais.

Os romances com temas egípcios tornaram-se verdadeiros best-sellers, as jóias egípcias são copiadas pelos desenhistas da atualidade. A forma piramidal inspira obras arquitetônicas mais modernas. As notícias de achados arqueológicos egípcios ocupam as primeiras páginas dos jornais. O cinema resgata temas e personagens do Antigo Egito. Os museus egípcios estão cheios de visitantes. Se isso acontece quando existem apenas vestígios daquela maravilhosa civilização, o que aconteceria sem tantos séculos de destruição e saque? O que ocorrerá no futuro, quando forem descobertos mais vestígios em localidades do mundo antigo ainda cobertas pelas areias do deserto?

Nenhuma civilização durou tanto, como a civilização dos faraós – e milhares de anos depois, ainda nos fascina tanto, essa maravilhosa civilização que prolongou-se por três milênios.



Na religião nos surpreende e até nos desorienta com a sua profusão de deuses e mitos. Os egípcios já tinham uma idéia da criação do mundo. Tentaram realizar uma revolução para implantar o monoteísmo. Possuíam uma moral, com conceitos éticos como "justiça", "verdade" e "bondade". Talvez não aplicassem a pena de morte e não podiam submeter outros egípcios à escravidão. A religião dominava a vida cotidiana e orientava-a para a vida além túmulo. (ao lado deus Amon em ouro)




Os egípcios foram um dos sete ou oito povos que inventaram a escrita ao longo da História da Humanidade, e talvez tenham sido os primeiros. Além disso, não tinham só um sistema de escrita, mas três. Porém, não se contentaram com isso: não só criaram grandes obras de História, de Direito e de Teologia, como também produziram vasta literatura:
  • romances e poesias
  • relatos épicos e contos
  • biografias e auto-biografias
  • textos eróticos e textos humorísticos

No que diz respeito à arte, os egípcios fizeram de tudo, e destacaram-se em tudo, desde gigantescas obras de arquitetura – tantos túmulos como templos – até pequenas cenas da vida cotidiana talhadas em madeira; desde colossais estátuas e obeliscos até relevos policromados e diminutas estatuetas vitrificadas; de afrescos magníficos nas paredes dos túmulos a minúsculos fragmentos de cerâmica decorados com graciosas bailarinas. Isso sem falar das magníficas jóias, obras primas da ourivesaria de todos os tempos.


A ciência e a técnica egípcia estiveram sempre ligadas aos problemas da vida cotidiana. A necessidade de medir os campos levou os egípcios a desenvolver a Geometria e a conhecer o Teorema de Pitágoras muitos séculos antes do próprio Pitágoras! A construção das pirâmides exigia que tivessem noções avançadas de Matemática e Astronomia – nas pirâmides foram usados muitos dados sobre meridianos e paralelos, sobre o Pólo Norte e as estrelas. A preparação das múmias deu-lhes um conhecimento extraordinário de Anatomia e Fisiologia. O Nilo permitiu-lhes desenvolver a navegação assim como a construção de canais de rega e de transporte. A construção de grandes monumentos obrigou-os a desenvolver a Engenharia.


O Antigo Egito sempre exerceu uma atração irresistível, do arqueólogo mais rigoroso ao simples turista, todos sentimos um imenso desejo de visitar seus templos e pirâmides, túmulos e obeliscos, museus e exposições. O Egito deixou a sua marca na nossa cultura mais recente em muitos filmes, peças de teatro, óperas, romances, livros de viagem, bem como na pintura e na arquitetura moderna e no desenho de jóias.

Origem: Egitomania fascículos 2001

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Egito, uma terra de contrastes



As pirâmides, os templos e os tesouros do Museu do Cairo são alguns dos atrativos oferecidos aos turistas que visitam o Egito. No entanto, a riqueza artística do país não é sua única atração. A mistura de comunidades religiosas e a variedade da paisagem fazem do Egito uma terra de contrastes.






Hoje, como antigamente, Hapi, a personificação divina do Nilo, está presente na paisagem egípcia. Embora o país se estenda ao longo de um vasto território – mais de um milhão de quilômetros quadrados – só 4% de sua superfície total são habitáveis, pois o resto é invadido pelo deserto. A vegetação que cresce nas margens do rio desaparece à medida que se avança pelo interior, o que não impede que o país abrigue uma população estável há mais de 5000 anos.


O Egito faraônico – a civilização egípcia formou-se nas margens do Nilo, primeiro com uma série de povoados de comunidades nômades e, mais tarde, com autênticas povoações. Enquanto a Europa ainda estava na Idade da Pedra, o Egito já começava a ser um Estado unificado. São desse período - o Antigo Império - as famosas pirâmides de Gizé, ponto de referência de todos os visitantes do país desde épocas remotas. A grande pirâmide de Khufu, uma das Sete Maravilhas do Mundo, a única que ainda existe. Foi durante o Novo Império, que se ergueu a maior parte dos edifícios monumentais atualmente vistos. Muitos deles construídos em pedra, o que facilitou a sua conservação, mas deve-se ter em conta que os templos que ainda permanecem de pé são apenas uma pequena amostra dos inúmeros edifícios construídos.

O Nilo também suscitou o interesse dos antigos viajantes que passavam por Kemet, nome dado pelos egípcios a seu país. Kemet significa: 'terra negra', a terra fértil que o rio depositava depois da cheia anual. Do outro lado, existia a 'terra vermelha', o deserto que rodeia o Egito. Além de fonte de vida, o Nilo facilitava a comunicação do país, função que em menor escala, ainda cumpre atualmente.

O aparecimento de novas religiões e a escassez de materiais para a construção foram algumas das causas da destruição dos antigos monumentos. Com a influência da comunidade cristã, muitos templos egípcios foram modificados, convertendo-se em basílicas cristãs. Posteriormente, o Egito caiu nas mãos do Islã e a sua arte.














O Egito islâmico – durante mais de 1000 anos, o Islã dominou o Egito. Diferentes dinastias governaram o país e converteram-no em um dos principais centros de comércio mundial da Idade Média. Durante o século XII, com Saladino, o Egito e especialmente a recém fundada cidade do Cairo, viveram uma época de grande esplendor. São desse período a cidadela cariota, algumas das mais importantes mesquitas e as madrasas, ou escolas religiosas. Com os mamelucos (milícia turco egípcia), o Egito continuou a desfrutar de uma situação privilegiada, até que no século XVI passou a ser uma província do Império Otomano. Os monumentos antigos, em sua maior parte bem conservados até então, embora particularmente cobertos pela areia do deserto, sofreram alguns atentados, como os disparos que destruíram o nariz da Esfinge. Só no final do século XVIII é que apareceram em cena as potências européias para lutar contra os otomanos. Primeiro a França com Napoleão, e depois a Grã Bretanha, que converteu o Egito em uma de suas áreas de influência até 1952.


O Egito moderno – um país em processo de modernização. Na capital e nas principais cidades, a economia é diversificada. Pessoas vestem-se com chilaba ou com roupa ocidental, as grandes urbes contrastam com os povoados e aldeias do interior, com suas casas de adobe, permitem que imaginemos como era o Egito antigo. Os habitantes dessas pequenas povoações vivem da agricultura, criação de gado, praticados com técnicas rudimentares. O fascínio que os restos dos antigos monumentos ainda hoje exercem faz do turismo a principal fonte de receita do país.

  • a superfície do país é de 1 001 449 km2,
  • população de 55 000 000 habitantes,
  • a capital é Cairo com 13 000 000 habitantes,
  • a língua é o árabe,
  • 90% da população é da religião islâmica e
  • a forma de governo é República presidencialista.

Fonte: Egitomania fascículos 2001

sábado, 25 de abril de 2009

O rei Escorpião e a alvorada de uma civilização

Há cinquenta milhões de anos. todo o Egito estava provavelmente sob o mar. Quando as águas se retiraram progressivamente, o Nilo começou a escavar o seu vale, e o Delta ainda não existia com seu aspecto atual. Em consequência dos movimentos de elevação do vale e também do afundamento definitivo do leito do Nilo e das mudanças climáticas, formou-se uma paisagem muito especial. O Egito pré histórico apresentava-se como um imenso oásis, já que as terras circunvizinhas haviam secado. Lá haveria de nascer uma civilização coerente.

Em breve se firmará o contraste entre a 'terra negra' do Egito cultivado e a 'terra vermelha' do deserto. Pouco a pouco irá se criar uma longa faixa cultivada que atravessará zonas hostis e inóspitas. No flanco ocidental, o deserto líbio é uma parte do Saara, ora pedregosa, ora arenosa. Nessa época, a desertificação não era tão evidente como hoje; havia zonas de pasto e de terra arável. Ali viviam as populações líbias, que nunca atingiram o elevado nível cultural dos egípcios. Esse povo tinha a pele branca, os olhos azuis e cabelos ruivos. No flanco oriental é uma via de acesso estratégico às regiões que formam a Palestina e ladeiam a península do Sinaí. Lá como a leste de Coptos, os egípcios traçaram pistas até as pedreiras, onde encontraram ouro, malaquita, cobre e turquesas. Hathor 'a dama das turquesas', foi logo cedo venerada em Serabit el Khadim. Ao sul a Núbia que começa na 1ª catarata, é uma região bem menos rica do que o Egito, mas os seus produtos exóticos e seu ouro interessarão aos faraós.

O homem egípcio talvez seja uma síntese de várias raças:
  1. nômades errante da savana saariana
  2. norte-africanos aparentados com os berberes e os calibas
  3. indivíduos semitas vindos ao mesmo tempo do norte do Sinaí e do sul do deserto arábico
Alguns autores chegaram a fantasiar que os egípcios seriam extraterrestres que vieram colonizar um ponto particularmente fértil do nosso planeta.

A pré história egípcia é muito pouco conhecida. O período anterior a Menés, o primeiro faraó abrange um tempo imenso em que reinavam as dinastias divinas. Os fatos continuam mal estabelecidos. Os mais antigos vestígios da presença humana talves se encontrem na região tebana; os egípcios primitivos sofreram certamente uma desertificação que os obrigou a se agruparem em torno de pontos de água e de oásis ao longo do Nilo. Antes de se tornaram sedentários, eram talvez nômades dedicados à criação. Sabe-se que o trigo foi cultivado entre 4600 a 4200 a.C. no vale do Nilo. Provavelmente nessa época os homens começaram a irrigar, a caçar e a pescar, a construir santuários para os deuses e a escavar sepulturas onde depositavam objetos preciosos para servir os defuntos no outro mundo. O Nilo deve ter terminado de escavar o seu vale por volta de 4000 a.C. e um acontecimento importante: a paisagem estabilizou-se, o homem tomou realmente posse dela e começou a melhorá-la.   Assim nasceu verdadeiramente o Egito – 

O fenômeno da hierarquização tem início, impõem-se o poder de um chefe mais autoritário e mais respeitado e, à sua volta, agrupa-se uma elite. O confronto entre duas povoações que queiram afirmar a sua soberania sobre este ou aquele território pode desencadear um conflito. Em suma, os "principados" locais surgem desenvolvem-se e alargam pouco a pouco as suas zonas de cultura e de caça. Subitamente um rei se manifesta. Um personagem impressionante, hierático, exibindo a coroa branca do Alto Egito. Já não é um simples chefe de clã, mas um monarca. Sua coroa constitui um indício de que não há engano. Seu nome é inigmático, escrito com o hiróglifo do escorpião, mas cuja leitura ainda não foi estabelecida. De modo que, para simplificar, é chamado de rei-Escorpião – existem vários objetos com a inscrição de seu nome, entre os quais um recipiente de Tura e oferendas encontradas no templo de Hierakonpolis, a Nekhen dos antigos egípcios. Mas o documento essencial é uma admirável peça proveniente da estação de Hierakonpolis e conservada no Museum de Oxford – um objeto de calcário contendo várias cenas em alto-relevo que marcam o aparecimento de um faraó na história. O rei Escorpião marca a sua soberania sobre as províncias. Lidera as suas tropas e vence as populações simbolizadas pelos pavões e pelos arcos, certamente os habitantes do Delta e nômades que viviam nas fronteiras do Egito ou em oásias. O rei Escorpião favoreceu a atividade econômica do país durante o seu reinado. Este soberano é um Hórus, como toda linhagem de faraós, ele é "aquele que pertence ao canavial" na sua qualidade de rei do Alto Egito. Veste uma simples tanga e tem uma calda de touro atada à cintura, símbolo do seu poder. Rei mago, a sua função consiste em ser um chefe guerreiro vitorioso, mas também em assegurar as cheias e as colheitas. Estes pontos essenciais são assegurados pelas cenas da peça. Um deles deve chamar-nos a atenção: O fenômeno das cheias. As cenas gravadas na peça de Hierakonpolis provam que o rei-Escorpião, que apenas reinava no Alto Egito, já tinha percebido claramente a importância da domesticação e exploração das cheias do Nilo. Só um poder forte e centralizador, encarnado na pessoa do faraó, seria capaz de realizar tal empreendimento. Nesse domínio, o rei-Escorpião foi um prodigioso inovador. Tirou o Egito da pré-história, ensinando-o a domesticar um fenômeno natural suscetível e de se tornar a fonte de uma grande riqueza. Os egípcios mais do que depressa construíram barcos. Na época do rei-Escorpião já devia existir uma corporação de artífices especializados. Não estamos apenas pensando nos primitivos barcos de papiro, mas em embarcações de madeira. A paisagem egípcia mudou e atualmente vêem-se poucas árvores. Em contrapartida, os operários do rei-Escorpião dispunham certamente de florestas que forneciam aos estaleiros navais. O centro vital do país que o rei-Escorpião dirigia situava-se provavelmente em Hierakonpolis, entre Luxor e Assuã. O Egito toma forma em seu reinado. Muitos contatos entre as civilizações de Elam na Suméria e o Egito.

O rei-Escorpião viveu cerca de 3000 anos a.C. e que a primeira dinastia começa no ano 2950. Julgou-se poder estabelecer que o pré dinástico recente, ou seja,  o período anterior a Menés, compreendia apenas dois reis:
  • o rei Escorpião
  • e um tal Ka
Mas certas tradições mencionam 60 reis no Delta, ou seja, uma longa linhagem monárquica no Alto Egito que teria começado por volta de 5500 a.C. e até 7 rainhas que teriam governado o Egito, lenda esta que teria servido de hipótese a um matriarcado muito antigo. Conclusão: antes de Menés, o Egito não se encontra unificado. O Escorpião reina apenas no Alto Egito. Mas um grande problema se mantém, o das relações exatas entre o Sul e o Norte, entre o Alto e Baixo Egito.

Sob a égide do Escorpião, uma região de pântanos e florestas transforma-se progressivamente em terra arável. As cheias começam a ser controladas, as águas trazem as riquezas, o trabalho dos homens é portador de maravilhosas esperanças. Graças a irrigação, uma civilização inédita nasce do limo fertilizante. O nascimento da mais perfeita língua jamais criada pelos homens – os hieróglifos, uma língua sagrada, igualmente criadora de cultura e de civilização. O nome do rei-Escorpião está inscrito num hieróglifo, nas paletas pré-dinasticas, sente-se que o hieroglífico está em formação que o pensamento dos homens se canaliza cada vez mais rapidamente para atingir uma forma de expressão original. O nascimento dos hieróglifos não é associável ao do Egito unificado: uma única língua para todo o país a fim de registrar todas as vontades dos deuses e dos reis; uma língua carregada de poder mágico.

Fonte: do livro 'O Egito dos grandes faraós história & lenda' 

Egito

Duas grandes forças: o rio Nilo e o deserto do Saara, configuraram uma das civilizações mais duradoras do mundo. Todos os anos o rio inundava suas margens e depositava uma camada de terra fértil em sua planície aluvial. Os egípcios chamavam a região de Kemet, "terra negra". Esse ciclo fazia prosperar as plantações, abarrotava os celeiros reais e sustentava uma teocracia – encabeçada por um rei de ascendência divina, ou faraó – cujos conceitos básicos se mantiveram inalterados por mais de 3 mil anos. O deserto, por sua vez, atuava como barreira natural, protegendo o Egito das invasões de exércitos e idéias que alteraram  profundamente outras sociedades antigas. O clima seco preservou artefatos como o Grande Papiro Harris, revelando detalhes de uma cultura que ainda hoje suscita admiração.

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