sábado, 18 de abril de 2009

Divindades

No início, havia o oceano primitivo – uma massa líquida inerte. Ao acordar, o demiurgo pôs fim ao caos e à escuridão. Para os teólogos de Heliópolis, o demiurgo era Aton, o sol, que tinha dado seu sêmen para tirar de sua própria substância um casal divino:
  • Shu (o ar) e Tefnut (a unidade). Este engendrou Nut, a deusa do céu, e Geb, o deus da terra, dos quais nasceram Ísis, Osíris, Seth e Néftis.
  • Nove deuses, em suma.
Um dia, o deus solar cansou-se, subiu ao céu entregando a terra aos faraós. Aos homens coube então a tarefa de preservar sua obra, constantemente ameaçada pelas forças do caos. Desobedecer a este ou àquele deus pode ter sérias consequências. O sol pode não nascer, a cheia do Nilo pode não acontecer. Nada está assegurado. Tudo recomeça a cada dia, a cada ano.
Neste mundo impregnado de divino, o sagrado manifesta-se por meio da fauna e da flora. Os deuses egípcios não se encontram num Olímpo, como os gregos. Cada um deles tem seu território terrestre e está associado a determinada proibição: um deus proíbe, ferir ou capturar certo animal, cuja forma ele assume ou cuja caça reserva para si próprio.
São deuses acessíveis, mas caprichosos. Podemos oferecer-lhes bens em troca de proteção. Podemos agir sobre os signos que os representam e até chantageá-los ou manipulá-los pela magia.

– O faraó é um deus, mas outros homens excepcionais podem ser divinizados após a morte. 

– Foi o caso de Imhotep, vizir, letrado, culto e  arquiteto, a quem devemos a pirâmide em degraus de Djoser, em Saqqara: tornou-se um deus curandeiro, celebrado em todo o Egito.

– No panteão egípcio, Ísis tem a aprovação de todos. Sabemos as proezas realizadas por ela para ressuscitar Osíris. 

– Como resistir aos encantos de Hathor, deusa da alegria e do amor, protetora das mulheres e dos viajantes? Mas cuidado: essa filha de Rá, muitas vezes representada por uma vaca, pode entrar na pele de Sekhmet, a leoa, enfurecer-se contra a humanidade.




O Egito Antigo celebrava centenas de deuses. Cada província tinha os seus, que se somavam às grandes figuras nacionais. Distinguiam-se pelo que ornava sua cabeça humana ou animal (dupla coroa, disco solar, crescente lunar etc), pelo emblema (pato, escorpião, pluma de avestruz) ou pelos cetros. A coabitação nunca foi problemática. Deuses eram reagrupados, associados (Amon-Rá, Khnum-Shu, Harmachis-Khepri-Rá-Aton) e a cada ano alguns eram casados.

"Nenhum outro povo criou tamanha multidão de deuses, deusas, seres e objetos sagrados", observou o egiptólogo Pierre Montet. "Nenhum outro construiu para eles templos tão magníficos e pôs a seu serviço tamanho exército de padres, chantres e músicos. Nenhum outro inventou tantos ritos e cerimônias." (L'Egypte éternelle, Fayard 1970).
Mas essa abundância é enganosa. Essa é nossa impressão quando consideramos todas as divindades sem distinção entre as épocas e as regiões. Os antigos egípcios dispersavam-se menos do que se supõe. Seu sincretismo encobria, na verdade, um monoteísmo fundamental, uma única força divina, que tinha um nome – netjer. Força única, mas abstrata, impessoal, que designa cada deus e ao mesmo tempo todos eles. 

Não compreenderemos grande coisa do Egito antigo se ignorarmos essa combinação entre o uno e o múltiplo que estruturava todo o imaginário de uma civilização.

Por Robert Solé

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Egito

Duas grandes forças: o rio Nilo e o deserto do Saara, configuraram uma das civilizações mais duradoras do mundo. Todos os anos o rio inundava suas margens e depositava uma camada de terra fértil em sua planície aluvial. Os egípcios chamavam a região de Kemet, "terra negra". Esse ciclo fazia prosperar as plantações, abarrotava os celeiros reais e sustentava uma teocracia – encabeçada por um rei de ascendência divina, ou faraó – cujos conceitos básicos se mantiveram inalterados por mais de 3 mil anos. O deserto, por sua vez, atuava como barreira natural, protegendo o Egito das invasões de exércitos e idéias que alteraram  profundamente outras sociedades antigas. O clima seco preservou artefatos como o Grande Papiro Harris, revelando detalhes de uma cultura que ainda hoje suscita admiração.

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